Miúcha – A Voz da Bossa Nova
Eu cantava, João grilava. Grilou tanto que minha voz sumiu
Por João Lanari Bo
Festival de Tellurides 2022; Festival do Rio 2022
A citação acima é da Miúcha – Heloísa Maria Buarque de Hollanda, cantora, pintora de aquarelas, personalidade única da música brasileira, e personagem central do documentário “Miúcha – A Voz da Bossa Nova” (2022), dirigido por Liliane Mutti e Daniel Zarvos. O filme exibe, com uma penetrante perspicácia, as idas e vindas da afirmação artística de Miúcha, tendo como foco seu casamento com João Gilberto, assim como vida familiar – irmã de Chico Buarque, seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, foi um dos principais pensadores sociais do Brasil, notório por sua teoria do homem cordial, apresentada em 1936 no livro “Raízes do Brasil”.
Como diria a sabedoria popular, não é pouca coisa. No plano musical, se a vida de Miúcha fosse adaptada para o cinema, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto seriam personagens fundamentais. Ela é a única cantora da MPB que teve o privilégio de gravar com os três. “Miúcha com Vinicius, Tom, João”, coletânea lançada pelo produtor Gil Lopes em 2008, conta a história dessa convivência. Diz ela: Fazer esse disco foi como arrumar um álbum de retratos antigos, só que é outra coisa, porque a memória afetiva da música mexe com você de outro jeito. Aí você começa a se lembrar das histórias e acaba virando um filme. “Miúcha – A Voz da Bossa Nova”, lançado quatro anos depois da morte da cantora, foi fundo nesse mergulho, agregando depoimentos, filmes Super 8 – imagens inéditas filmadas em Nova York, com João – e fotos. Virou um filme, (quase) um filme de família.
Os filmes de família, filmes domésticos, estão ligados a memória, representação e construção de identidades. Hoje, com a vertigem digital, a facilidade desse registro universalizou-se: mas, nas décadas de 1970 e 80, o Super 8 espraiou-se e deixou acervo considerável. É comum inserções nesse formato no cinema, sejam filmes independentes ou mainstream – uma diferença de granulagem na imagem indica sua origem. O ato de filmar a própria família revela como o sujeito moderno projeta a imagem que deseja registrar e lembrar de si mesmo. Claro, imagens íntimas de Miúcha e João Gilberto possuem uma dimensão histórica imediata, quando apropriada (e montada) pelo cinema.
A esse conjunto, “Miúcha – A Voz da Bossa Nova” adiciona cartas e diários escritos por Miúcha no exterior e lidos pela atriz Silvia Buarque, além de áudios de entrevistas feitas com Miúcha pelos diretores. João Gilberto, com quem Miúcha se casou em 1965, emerge como marido individualista, egocêntrico e insensível aos anseios da mulher. Eu cantava, João grilava. Grilou tanto que minha voz sumiu, desabafou. Curioso é que o percurso musical de João Gilberto, se é que é possível imaginar algo nessa direção, sugere uma lapidação infinita da tonacidade das cordas vocais, cujo objetivo, inalcançável por certo, seria o silêncio – título de seu último disco. Consultada sobre essa hipótese, a IA respondeu o seguinte:
A sua percepção é cirúrgica. A voz de João Gilberto é tratada com tamanho rigor na articulação das palavras, no tempo e no controle dinâmico que o canto se torna uma verdadeira extensão das cordas do violão. O resultado é uma pureza sonora onde o artista extrai a essência absoluta de cada sílaba.
Veja o leitor como a IA sabe agradar o eventual consultor. O fato é que esta talvez tenha sido a obsessão que o perfeccionista João Gilberto submeteu a esposa e os demais a seu redor. Um exemplo candente é a apresentação do cantor em 1979 no Teatro Castro Alves em Salvador, que marcou seu histórico retorno ao Brasil após 15 anos morando nos Estados Unidos. Um vídeo no Youtube registrou as incontáveis exigências sonoras do pai da bossa nova, ladeado por uma incansável (e aflita) Miúcha, ao pobre técnico que o assistia. Haja paciência.
“Miúcha – A Voz da Bossa Nova” mostra, enfim, como a cantora Miúcha encarou tudo isso e muito mais, e transformou-se em uma formidável intérprete.
Ela gravou também com o outro pai da bossa nova, Antônio Carlos Jobim – Eu pedi uma música para o Tom e a gente começou a fazer o disco junto, disse. Tom era a grande estrela de uma mesa de bar. A gente passava a semana inteira enchendo a cara, depois saía e ia para a casa dele ou para a minha casa ensaiar.
Depois de separar de João Gilberto, Miúcha reconciliou-se com o ex-marido. Faleceu em 2018 (e João Gilberto em 2019).




