A Morte do Demônio: Em Chamas

Por dentro da estrutura machista

Por Francisco Carbone

A Morte do Demônio: Em Chamas

Há alguns anos ouvimos (e também declaramos) a mesma coisa nos veículos de imprensa: que excelente temporada para os filmes de terror. Essa fala inclui as altas bilheterias dos títulos, mas aliado a isso a qualidade inegável que esses mesmos filmes vem conseguindo, junto à crítica e às premiações. Filmes como “Pecadores“, “A Substância“, “A Hora do Mal“, “Nosferatu“, a aceitação de vários títulos em festivais de primeira grandeza como Cannes, Berlim e Veneza, e suas eventuais vitórias, mostram um quadro de permanência, mostrando que essa “fase” está durando bem mais do que uma temporada – ainda bem. Se em 2026 já tivemos os ótimos “Extermínio: Templo dos Ossos” e “Backrooms – Um não Lugar“, um outro patamar é alcançado com “Obsessão” e com seu primo direto que acaba de estrear, “A Morte do Demônio: Em Chamas”.

A familiaridade está na força temática que se impõe nos dois filmes, e que deixa uma ‘brincadeira divertida’ como “Casamento Sangrento” exatamente nesse lugar inofensivo. O filme de Curry Barker acertadamente mirou em um tipo de macho que preferíamos ver em extinção, mas que o noticiário insiste em mostrar seus letais números; o feminicídio é uma realidade que ceifa vidas diariamente. Enquanto tipos que aparentam normalidade por trás de índole assassina estiverem livres para matar, filmes como “Obsessão” e “A Morte do Demônio: Em Chamas” serão ainda prementes. E o que a saga envolvendo a leitura do Necronomicon (ou O Livro dos Mortos) tem a conversar com o tema? Com histórias que têm surgido de maneira independente, o novo capítulo dirigido pelo francês Sebastian Vanicek mostra esse cerne de maneira envolvente desde a primeira sequência, criando uma atmosfera de violência que parece atraída pelo livro, que chama-o para perto de quem já está imerso no horror cotidiano.

E sim, “A Morte do Demônio: Em Chamas” é, entre todos os títulos da saga que Sam Raimi iniciou em 1980, a obra que mais traz paralelos com a sociedade, em externo aos seus eventos. Vanicek, que já tinha feito isso com a relação entre estrangeiros e xenofóbicos em seu “Infestação”, carrega para o capítulo novo não apenas um discurso rápido. O filme se desdobra dentro de um núcleo familiar para apresentar as origens de um comportamento que se alastra para além dos limites particulares. Odiar uma mulher e violentá-la vai além do ato, é um modo de pensar difundido por gerações e que assola as estruturas não apenas masculinas, mas que são tragadas por completo. Esse é também um filme que poderia ser utilizado para explicar a tese do machismo estrutural de maneira prática, porque observa gerações de familiares envolvidos em um moto perpétuo de silêncio e de auto censura, de homens e de mulheres, gestados em um mesmo contexto.

Independente do discurso, o filme de Vanicek é uma peça de horror excepcional que conta com a descoberta desse novo nome autoral para conjurar um trabalho de direção que o gênero não vê em todos os lugares. Ainda que estejamos nesse já debatido momento de excelência, o horror é um gênero que produz muito material descartável, absolutamente burocrático quase mensalmente. E o que é mostrado em “A Morte do Demônio: Em Chamas” é um autor que pensa cada plano, monta cada quadro, realiza toda uma decupagem, para que o filme mais orgânico e de bom gosto estético chegue até o espectador. Não se trata apenas da qualidade dos planos sequências, ou de uma fotografia que pense cada lente de uma forma especial – é um coletivo de acertos, incluindo o pensamento temático para cada uma das decisões estéticas.

Ou seja, o que é conseguido em “A Morte do Demônio: Em Chamas” tem muitas excepcionalidades, incluindo a caminhada conjunta de projeto de narrativa com um projeto de Cinema. Enquanto o que é dito tem a potência que se agiganta conforme avançam as ações, o que é mostrado igualmente cresce em sua equivalência. É um trabalho conjunto que raramente era visto no cinema contemporâneo, mas que Jordan Peele e seu “Corra!” trouxeram de novo ao debate. O horror é um gênero que permite essa comunicação, e o trabalho de Vanicek é também para ampliar esse olhar, que não se restringe a uma só percepção.

Nesse sentido, a escalação do elenco é igualmente feliz. Por tratar-se de um grupo de ótimos atores, porém de carreira pregressa desconhecida, isso fortalece as regras do jogo, não fazendo com que tenhamos qualquer imaginação prévia aos acontecimentos. Os trabalhos de Souheila Yacoub e Luciane Buchanan são bons em especial, porque não simbolizam a tradição de uma ‘scream queen’, mas sim apontam as ideias do roteiro para designações diferentes. Difícil é encontrar o que costurar de negativo em uma obra que foi toda construída para alcançar esse laço especial com o espectador que não está satisfeito em ir ao shopping assistir a uma nova estreia de terror. Isso acontece sem apaziguar o gênero, e sem negá-lo; “A Morte do Demônio: Em Chamas” é um pacote acima de qualquer suspeita.

4Nota do Crítico51

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