Backrooms: Um Não-Lugar
O Arquiteto e a Terapeuta
Por João Lanari Bo
“Backrooms: Um Não-Lugar” é o longa-metragem que sacudiu a poeira dos cinemas de shopping mundo afora, dirigido por Kane Parsons – com apenas 20 anos, ele bateu um recorde: é o mais jovem realizador estreante a dirigir um blockbuster original de horror, batendo Steven Spielberg e outros menos votados. Como entender, ou pelo menos abordar, esse fenômeno?
A indústria do espetáculo norte-americana é pródiga nesse tipo de grandiloquência, sabemos disso. Os números parecem confirmar o prodígio: segundo as últimas informações coletadas pela IA, o filme arrecadou, até agora, mais de US$ 212,6 milhões em todo o mundo, incluindo US$ 135 milhões na América do Norte e US$ 77,6 milhões internacionalmente. Produzido com um orçamento estimado em apenas US$ 10 milhões, rapidamente se tornou o filme de maior bilheteria da produtora A24 de todos os tempos. E foram apenas 10 dias de filmagens, em Vancouver, Canada.
Kane começou aos 16 anos a postar em seu canal do Youtube imagens labirínticas de espaços vazios, espaços que sugerem mentalizações oníricas sem fim. Uma postagem anônima em tópico do 4chan dedicado a imagens perturbadoras deflagrou o processo: um espaço interior com papel de parede amarelo, luzes fluorescentes e carpete no chão, que se multiplicava com a mobilidade da câmera. Um lugar, ou não-lugar, fora da realidade, nos quais alguém fica preso. As postagens combinavam uma nostalgia tátil da era do VHS com instabilidade digital, aliado à imersão típica dos games. Viralizou rápido, dezenas de milhões de seguidores, e logo a A24 convocou o jovem visionário para dirigir o longa.
Imagens de corredores vazios, grandes armazéns desabitados, escadarias e estacionamentos, cenas cotidianas que aparentemente não revelam nada estão inscritas no inconsciente ótico da audiência – “Backrooms: Um Não-Lugar” joga também com esse infinito que assistimos em inúmeras produções, signo recorrente da visualidade contemporânea. Um leitor atento do Letterboxd lembrou ainda, comentando o filme, a proposição de Jorge Luis Borges: Não há necessidade de construir um labirinto quando o mundo inteiro é um, enunciada em seu conto sobre um ponto no espaço que contém e observa todos os outros pontos. E o que é a internet, senão um ponto que observa todos os labirintos, ou seja, labirinto infinito sem centro?
Não é a primeira vez que acontece uma surpresa dessas, um filme que capta uma ansiedade no ar e estoura na bilheteria. “Bruxa de Blair”, lançado no final do último milênio, é um dos exemplos. É como se o sistema de produção hollywoodiano, capitalizado em níveis estratosféricos e turbinado de novas tecnologias, abrisse espaço para um contraponto radical, tanto em termos de custo como de realização. “Backrooms: Um Não-Lugar”, para além do inegável contágio na audiência, parece entusiasmar também observadores mais exigentes, seja pela novidade da linguagem, como foi o caso do crítico do The Guardian, seja pelas leituras psicossociais – na falta de uma melhor palavra – que suscita.
Afinal, do que estamos falando? Uma pista inicial é dada no título escolhido pelo distribuidor brasileiro. Levado por uma empolgação especulativa, esse personagem anônimo da cadeia cinematográfica escolheu adicionar a expressão “não-lugar” ao título original. O aposto explicativo, definido pela IA como “recurso de coesão, clareza e ênfase no texto” pode atrair espectadores, como seria a intenção, mas remete também a um conceito popular entre acadêmicos pós-modernos. Seria algo como:
Um não-lugar é um conceito criado pelo antropólogo francês Marc Augé para definir espaços de transição e circulação criados na modernidade (aeroportos, shoppings, rodovias) onde as pessoas permanecem anônimas, não criam vínculos sociais profundos e não constroem identidades ou histórias duradouras… a internet e as redes sociais também são extensões de não-lugares, uma vez que promovem conexões padronizadas e rápidas sem um vínculo de identidade real ou raiz histórica.
Uma pesquisadora catalã, Rosa A. Cruz, vai adiante e afirma:
Backrooms é um novo gênero de terror que se fundamenta na estética do espaço liminar pós-capitalista e na anomia generalizada da sociedade global contemporânea. Nesse gênero, a figura humana praticamente desaparece, deixando a arquitetura como protagonista.
E mais:
Para além da sua dimensão dramática, os backrooms podem ser interpretados como um reflexo de uma sociedade contemporânea profundamente inundada por ambientes digitais e da consequente desvalorização da imagem como garante da verdade. A arquitetura dos backrooms é composta por espaços desocupados em diferentes estágios de deterioração, neles, como em grande parte da ficção científica, a ausência do Outro é substituída por criaturas estranhas que espreitam, mas nunca se revelam completamente.
Viveram essa aventura aterrorizante o arquiteto frustrado Clark (Chiwetel Ejiofor) e a terapeuta traumatizada Mary (Renate Reinsve). E a história, claro, se passa nos anos 90, antes da internet disseminada como conhecemos hoje – ninguém no filme usa celular.




