Futuro Futuro

A ação do hoje contra a duplicidade do amanhã

Por Fabricio Duque

Futuro Futuro

“Futuro Futuro” é acima de tudo uma radiológica metáfora política de “neuro-deflação súbita”. Uma crítica social em ruídos e em frequências dissonantes. Uma crônica barulhenta a fim de provocar e estimular sinapses adormecidas. O longa-metragem, dirigido pelo gaúcho Davi Pretto, que foi vencedor como Melhor Filme do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025, busca nos conduzir por uma narrativa conceitual, autoral, metafísica e contemporânea, quase uma premonição futurista por “erosões neurológicas”, com a sensação presente de uma ficção científica em distopia altamente contraditória e paradoxal, por representar a possibilidade do acontecer (as IAs estão aí para mostrar que a “evolução” tecnológica já chegou). Isso porque o roteiro permite a organicidade da criação, num que do cinema de Adirley Queirós, por exemplo, e sua máquina do futuro. Parece um filme cabeça demais, mas na verdade sua mensagem está bem explícita e reside na própria substância do existir em sociedade.

Davi Pretto quer em “Futuro Futuro” a desconstrução existencialista da própria ideia, criando assim uma narrativa sensorial, de linguagem estética, entre silêncios e perguntas demais, com zoom etéreo, fotografia idílica que muda de cor, por um cinema direto, tela quadrada, projeções, cenas estendidas sem corte, sexo gay, e uma iminência de perigo, sempre à espreita, bem à moda de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, e “Alpha”, de Julia Ducournau. “Cada imagem que voltar à cabeça, anote”, dá-se o “comando”. Este é também um filme puzzle, por não vir didático, tampouco mastigado a quem assiste. Será tudo um sonho? Uma manifestação de um surto psicótico? Ou a realidade que de tão surreal aterroriza? O cenário é perfeito: um suposto invasor, um bairro de rico, o auxílio do governo, gerador de conteúdo, drone ifood, memórias não lembradas e as tarefas de um oráculo. Tudo tem uma aura mesmo de distopia científica, quase um “Black Mirror” com um que de Alain Resnais, mais de portal coloquial e periférico. “O que você faria se só te restasse um dia?”.

“Futuro Futuro” busca a catarse elétrica de um “vulcão em erupção”, com constantes zumbidos agudos. Sim, tem algo de errado. Aos poucos, nós entendemos que o que vemos é sobre as enchentes apocalípticas num Rio Grande do Sul distorcido, que devastaram uma Porto Alegre cinzenta, inclusive com festas de fim de mundo. Davi Pretto transforma dor em arte neste filme, entre realidade e imaginação, para falar de depressão, de vazio oco e “buraco dentro” da personagem ficcional. Inspirado pelas culturas hacker e cyberpunk, “Futuro Futuro” também é um filme que pensa na “duplicidade de futuros” em como as novas tecnologias podem ou não serem usadas. É um estudo social em forma de experiência imersiva, onde o afetado é o ser humano enquanto indivíduo social e que afetam a crise climática.

“Futuro Futuro” conta a história de K, que acorda sem memória e é acolhido por um clickworker idoso e solitário. Assim, “em vez de celebrar a tecnologia, o longa-metragem a retrata como uma fábrica de ilusões vazias”, como bem disse Marcio Sallem. Sim, toda essa atmosfera melancólica quando uma tragédia escancara a desigualdade social numa pós-catástrofe. Este é um filme de espelhos, atravessamentos, distanciamentos, estranhamentos e mais perguntas que respostas, ora pragmáticas demais a uma audiência acostumada a ter tudo explicado nos mínimos detalhes. Esse é um cinema de performance do caos, com o sonho de uma “casa amarela de dois andares, um lago de águas cristalinas, uma rua limpa e tranquila”. “Tente imaginar”. Nós aprendemos que nossos sonhos não podem ser individuais e sim, coletivos. Desejar o padrão dos outros para ter um mundo padrão. Talvez a solução seja mesmo viver num universo de realidade virtual, em que o artificial supre as demandas não mais subjetivas.

É parece mesmo que “Futuro Futuro” está no estágio de Saturno em Áries, em que depois da imaginação, deve-se colocar tudo em ação urgente. Sim, o não lembrar da personagem o protege do agir, o deixa em posição confortável do esperar. E sim, pensar no futuro distante também é uma opção preguiçosa, porque na cabeça popular esse tempo demorará muito a chegar. No dicionário, futuro é também destino e sorte. Já na filosofia moderna, “é visto como uma construção aberta do presente, uma projeção da imaginação humana e um campo de probabilidades”. Já os filósofos antigos dizem que é “uma ideia mental” e que “a única realidade concreta e vivida é o presente”. Assim, se o amanhã não está pronto ou escrito e se muda a cada escolha feita no momento atual, então como conclusão de “Futuro Futuro”, nunca haverá um depois, porque sempre será o presente real. Sim, obras assim como a de Davi Pretto não fazem bem ao cérebro, porque dão uma bugada no achismo definidor que já se construiu sobre nossas existências e fazem também que nós comecemos o futuro futuro, duplicado e presente, ainda no dia de hoje.

4Nota do Crítico51

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