Babaçu Love

Coco inchado 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026

Babaçu Love

Como disse a colega Maria do Rosário Caetano, os primeiros 20 minutos de “Babaçu Love” são imperdíveis, neles cabem a total compreensão de seu propósito, do fato dele ter sido selecionado para um festival de cinema, e de como a estranheza que o mesmo provoca é beneficiária dentro da obra. A abertura do filme aconteceu com o voo de uma borboleta pela cidade onde o filme se localiza, Ramadinha, e através desse efeito, o filme perambula por um lugar de desconforto estético mediante suas texturas e seus efeitos cromáticos. Está tudo liberado para a estranheza deliciosa que o filme promove, entre o mergulho no interior do Piauí, conhecer esse grupo de tipos cômicos bastante variados, e seguir a aposta em uma viagem narrativa que bebe no popular(ejo) e na fonte do brega.

O diretor Cícero Filho entende que sua aposta em um musical bagaceira é a pedida acertada para afinar um roteiro que tem interesse no melodrama envolvendo um grupo de relações românticas e nos conflitos entre mãe e filha são a mola para o desenvolvimento do jogo cênico. Na primeira sequência musical (o gênio por trás de “babaçu à bunda” merece aplausos), “Babaçu Love” já diz a que veio. Um olhar histérico para um universo retratado em “Amor, Plástico e Barulho”, mas que não deixa de mostrar os reais valores entre seus personagens. Que o filme embique um trabalho de direção apurado, que drible essa vocação para o deboche com certo apuro imagético inicial, nos pega desprevenidos.

Passado o encanto inicial, “Babaçu Love” começa a surtir efeito a partir de outras perspectivas, que não poderão ser reproduzidas de fora do Festival de Vitória. Falo isso por conta exatamente do estranhamento natural que existe de ver uma ideia tão popular ganhar os palcos de um evento respeitado, com o escrutínio de um júri e a sanha avassaladora de um grupo de jornalistas. Assistir em um dia uma ideia experimental como a de “As Florestas da Noite“, e no dia seguinte essa proposta abilolada de comédia oitentista calcada no humor rasgado, com a participação de figuras de influência (como Whindersson Nunes), é por si só uma ideia radical de curadoria, que oxigena todo o festival, e congraça ao filme específico uma ideia de originalidade.

Um ponto precisa ser esclarecido: não há qualquer problema de um filme ser uma comédia escrachada, ou em ser um melodrama mais agudo, ou mesmo em ter um pouco de cada. Essa última alternativa, no entanto, é a mais difícil, porque carece de habilidade para as transições, controle ainda mais afinado de cada um dos seus espaços, e um elenco que entenda que pode ir de um pólo a outro sem se deixar levar pela radicalidade de ambos. “Babaçu Love” é corajoso a ponto de tentar mais do que seus pés alcançariam, e o diretor Cícero Filho é muito mais habilidoso no escracho que no cinema dito ‘sério’. Suas questões acabam não naturalizando da melhor maneira possível, e o exagero da comédia blinda o filme de uma emoção mais genuína.

Do numeroso elenco, alguns pontos precisam ser colocados. A estreante Amanda Odillon é muito capaz; ainda que não consiga alcançar todas as notas de sua Diloura, se entrega de corpo todo para um personagem que não é fácil. Já Gisele Vasconcelos, atriz de teatro consagrada, tira de letra sua Paraibana, criando alguns momentos tocantes. Enquanto Whindersson Nunes se mostra mais confiante no ofício que abraçou, Alisson Emanoel se apresenta sempre seguro como esse galã improvável. Ou seja, o trabalho de elenco em “Babaçu Love” não é o seu calcanhar de Aquiles; em seus ombros foi colocada muita responsabilidade, e seus atores de modo geral correspondem ao que lhes é pedido.

“Babaçu Love” é uma ideia que se apresenta menos equilibrada a cada avanço da narrativa, e sua duração de 124 minutos é um dado que poderia ser enxugado. Por exemplo, as inserções de dados e imagens documentais a respeito das atividades envolvendo as quebradeiras de côco são exageradas, embora sua trama seja de profunda necessidade. Soa como riscado tão agudo quanto as ideias cômicas; a diferença é que na comicidade, Cícero Filho e sua trupe se saem bem melhor, inclusive na vontade de apresentar a cultura do seu Piauí.

2Nota do Crítico51

Conteúdo Adicional