As Dores do Mundo: Hyldon

Sem lenço, sem documento 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra CineOP 2026

As Dores do Mundo: Hyldon

A essa altura, e com a quantidade de títulos que lança, é meio que impossível precisar quantos filmes Emílio Domingos tem realizados – até porque, tantos outros ainda não lançados já estão prontos. “As Dores do Mundo: Hyldon”, então, é um dos quase 20 filmes que o cineasta entregou nos últimos 25 anos, e a frequência tem sido ampliada ano a ano. Vejam só, ano passado ele tinha três filmes inéditos no Festival In-Edit (além desse, “Os Afro-Sambas: O Brasil de Baden e Vinícius” e “Anos 90: A Explosão do Pagode”), e só um deles já foi lançado. Agora, a CineOP trás essa nova oportunidade para que um personagem tão rico venha à tona, após anos onde seu reconhecimento era marginal. Aliás, essa é uma marca de Domingos: em sua maioria, seus filmes versam sobre cenários e tipos que a História não quis contar, e que talvez até preferisse que não exista. E que agora divide a direção com Felipe David Rodrigues.

Hyldon, como o filme mostra, foi um artista com ainda mais curvas do que sugere seus sucessos, como o que dá título ao filme e “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, entre outros. Surgido nos anos 70, ele foi mais um artista que, ao não abrir mão do que fazia dele único, foi gradativamente apagado. Como ele, nomes como Tim Maia e Raul Seixas (não apenas contemporâneos a ele, como parte integrante de seu grupo) também gritavam por liberdade artística, mas um tanto da personalidade do cantor, compositor e produtor foi tolhida. Muitos desses apagamentos são resultado de uma tentativa real de não permitir algo parecido com uma insurreição artística aos domínios das gravadoras, que tinham real poder na época.

Paralelo ao que é superficialmente (ou não) debatido, Domingos tem condições de tornar-se um pesquisador ainda mais superlativo do que já é. Seus últimos filmes estão indo além de filmar a burocracia, o avesso disso até: suas escolhas não encerradas ao que ele filmou, quem ele filma, mas ir para outra categoria onde a forma é a principal vitrine de acesso. Ainda que pese a importância do protagonista e da maneira apaixonada como Domingos defende suas decisões, sua arma está no que o inquieta enquanto provedor de novas imagens. Temos então um cineasta cujo rigor estético vai ser seu carro de visitas, e que o fato de filmar documentários não encareta as decisões finais.

Domingos é um cineasta profundamente preocupado com o que emprega em seus filmes, não lança algo supérfluo no mundo, nem deixa de tratar suas imagens, dando textura ao que é filmado. Em “As Dores do Mundo: Hyldon”, por exemplo, ele se apropria das imagens de arquivo para conferir um aspecto parecido a tudo que está em plano. Uma apropriação do formato super 8 para contar sua história é o mínimo que ele faz, com um trabalho de montagem mais uma vez especial. Não apenas pelo que edita, mas principalmente pelo seu tempo, pela costura entre passado e presente e pelos personagens amealhados para costurar suas ideias.

Assim sendo, temos o protagonista apresentando sua visão das coisas, e também um time muito equilibrado entre figuras de tempos múltiplos, incluindo profissionais da indústria do disco. De Sandra de Sá e Wanderléia a Seu Jorge e Liniker, cada um dos presentes marca suas falas com a importância do disco de estreia de Hyldon como um marco pessoal e também como uma construção histórica de olhar libertário. A forma como o disco se comunicava com a música difundida no período em várias partes do mundo, a maneira como muitos Brasis se traduziam naquelas canções tão imagéticas, a qualidade do que foi colocado de engenharia sonora e complexidade de arranjos, mostram que o artista teve importância tão influente quanto vários outros do seu período, e que ter voz ativa pode ser considerado crime inafiançável dependendo da sua cor.

A discussão em relação à liberdade de expressão está na boca dos convidados da produção, mais do que ao protagonista. Hyldon está em paz quanto à tudo que aconteceu com ele, tendo sua culpa ou não. Ainda que sua persona tenha decidido o que estaria em seu destino, também foi seu molde que determinou o futuro. O que Domingos e Felipe conseguem através de “As Dores do Mundo: Hyldon” é refletir sobre as escolhas de um homem preto cuja respeitabilidade adquirida existiu até o momento onde ele ousou ter voz própria. O mundo mudou, só não conseguimos entender se ele evoluiu.

4Nota do Crítico51

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