Pau D’Arco

Ceifados 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Goitacá de Cinema 2026

Pau D’Arco

O celeiro documental brasileiro tem um patrono, que não é qualquer cineasta; Eduardo Coutinho é um dos maiores diretores de todos os tempos, em qualquer língua. A cada novo excepcional registro em documentário a qual somos apresentados, as bênçãos do mestre são possíveis de ouvir. Ainda bem, ele nos abençoa muitas vezes, todos os anos, porque se vivemos um momento especial da cinematografia brasileira, isso também se deve ao fato de que nossos longas do recorte tem sido tão especiais quanto qualquer obra de ficção. “Pau D’Arco” é um dos mais luminosos da atual temporada, e um filme que se imagina mais tradicional, de recorte mais calcado em um Cinema já amplamente reconhecido ou… pense mais uma vez; tem algo especial acontecendo aqui.

Ana Aranha é jornalista de formação, e com seu registro, que poderia ser mais formal ou menos, digamos, cinematográfico, consegue em “Pau D’Arco” algo que não é simples, nem muito menos comum. Reconstruir (ou reconstituir) eventos já vividos, através do que consegue compreender emocionalmente entre personagens e os eventos que os transformaram, é uma experiência de alicerçar sentimentos de maneira focada e sem sentimentalismo. Mas é justamente através da verdade de suas motivações, tanto dela como diretora quanto de quem ela mesma filma, é que acontece algo transcendental na frente da lente. Ana tem os protagonistas certos, a história cinematograficamente interessante, e para alcançar seus intentos, não seria necessário mais do que já é factual; pois ela foi lá e fez algo ainda mais complexo do que filmar seus discursos – o que potencialmente já teria impacto.

Em 2013, um grupo de trabalhadores do Movimento Sem Terra tornou produtiva uma fazenda que estava no oposto de suas possibilidades; quatro anos depois, a polícia invadiu o acampamento e realizou um massacre, matando 10 integrantes do grupo, alegando terem sido recebidos a tiro; não houve qualquer ferimento entre os policiais. “Pau D’Arco” acompanha uma dupla de protagonistas: Fernando, um dos sobreviventes ao massacre que resolve sair do programa de proteção, e Vargas, advogado que briga pela causa do grupo como um todo. Dois tipos fascinantes pelo que representam e pelo que verdadeiramente são, enquanto indivíduos em seus universos particulares. Com os dois personagens em mãos, Ana tem narrativa.

A diretora Ana nasce no que ela consegue elaborar imageticamente entre esses dois personagens cruciais. E “Pau D’Arco” extrapola relevância quando encontra essa cineasta disposta a contribuir tão efetivamente a discussão, indo de algo mais esteticamente observacional, como no primeiro encontro entre os protagonistas, quando ao espectador cabe sentir a intimidade, a admiração e o afeto existente entre eles, até o thriller que ela estabelece, no estado de tensão que o filme elabora e nos ganchos que ela consegue através de códigos do cinema ficcional. Quando as ameaças começam a sufocar os protagonistas, imagens captadas por câmeras de segurança, ou a insidiosa presença do fogo entre eles, consegue que saiamos da sugestão para entender a força do que estava acontecendo ali.

“Pau D’Arco” nos carrega para dentro dos domínio de eventos apresentados de tal maneira, que muito rapidamente estamos nos importando em absoluto com uma situação que não apenas soaria como desconhecida até antes da sessão. Sem soar didático, o filme nos coloca muito facilmente de maneira empática ao que é seu foco investigativo. Mas não é por ser jornalista que Ana está realizando em cena uma reportagem, uma matéria; tudo o que consegue dentro dos modos de produção existentes, desenham um aporte de cinema para sua empreitada. Não é à toa que as emoções são tão facilmente afloradas pela produção, seja no choro coletivo que facilmente se testemunha, ou na revolta igualmente implacável que o espectador acessa. Esse é o quinhão ao qual sua cineasta acessa, de maneira até indiscriminada.

Não falta uma bem-vinda intensidade aos eventos que o filme apresenta, e essa é mais uma característica positiva de “Pau D’Arco”, porque os elementos factuais inerentes a um documentários eles servem de apoio estético para o que Ana tem de ambição, ao mesmo tempo em que tudo que foi filmado não é ostensivamente posado. Ainda que exista um pensamento de cinema do início ao fim do que vemos na tela, sua realizadora costura tais intenções como se a naturalidade do que é filmado estivesse à sua disposição. Acima do que é conseguido através de um trabalho de mise-en-scène programático, as mesmas ideias estão ali dispostas da maneira mais naturalista possível. E por isso que, em meio à revolta e às múltiplas surpresas que o filme descortina em sua estrutura, ainda paira o surgimento de uma cineasta das mais completas.

5Nota do Crítico51

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