Torniquete

Dissolvendo as dores 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Goitacá de Cinema 2026

Torniquete

O Festival de Cinema de Goitacá tem apresentado em sua curadoria uma forte presença do feminino, entre as autorias e o recorte narrativo também. Estamos de maneira comum diante de um grupo de mulheres que lutam para vencer seus lutos, reerguendo-se diariamente para não ser mais um apontamento estatístico. Sejam nos curtas ou nos longas, estamos diante de histórias onde o corpo feminino é espaço de discussão ou de movimentos que avançam narrativas. “Torniquete”, de Ana Catarina Lugarini, exerce o papel de testemunho ocular de uma família de três mulheres em estágios diferentes de desejo e ação. Lucinda, Sônia e Amanda são, respectivamente, avó, mãe e filha, vivendo em uma casa que não as refugia, e sim as impele a novas e recorrentes formas de violência, dos dois lados da lei.

Lugarini assina o roteiro junto a Alice Name-Bomtempo (de “Modo Avião”), e juntas elas conseguem personalizar questões inerentes a três faixas etárias distintas, que são simbolizadas através de inquietações equânimes, mas com saídas particulares em suas dores. Confinadas em uma mesma casa, “Torniquete” abre com uma situação de violência extrema: as três foram trancadas em um mesmo cômodo por um grupo de assaltantes que deixaram uma cicatriz no rosto de Amanda. De acordo com Lucinda, esse é o assalto de número 43 que ela passa naquela mesma casa. Ou seja, o filme nos conta que não há segurança para suas mulheres, ainda no que deveria ser seu espaço de conforto; ser mulher é ser invadido constantemente, e tantas e tão cotidianamente que já nem faz diferença a quantidade.

Essa violência está em todos os lugares, na verdade: é no tratamento que se tem entre seus amigos – e que não se acha violentador, mas o é – no trabalho que você executa de maneira precária, entre as pessoas que deveriam lhe proteger também existe a invasão (a cena do ovo de Páscoa é emblemática). O estado de constante vigilância é tanto e vem de todos os lugares, de maneira que adoecemos relações pessoais. “Torniquete” parte de um lugar da desordem emocional, nesse trio de mulheres que obviamente se querem bem, mas que se perderam no caminho das muitas porradas levadas diariamente. Tornaram-se inclusive tóxicas entre si, já que o estado das coisas as levaram a isso.

Parece clichê, mas o filme lida com as ações de maneira pura: é a chegada de uma lufada de amor externo que o interno estará reconciliado, e pronto para ser usufruído mais uma vez. Amanda tem contato com essa nova figura feminina, que parte do mesmo lugar estranho que habita o ambiente escolar, mas o que existe entre elas se revela rapidamente, e a partir da chegada desse novo personagem, tudo o que está à sua volta se mostra renovado. Mesmo a figura taciturna e reativa de sua avó, aos poucos revela uma doçura que parecia perdida. O filme ganha ares de aventura da descoberta de sentimentos que estavam represados, e que apenas a juventude é capaz de reconectar.

O problema é que o excesso de simbolismos do roteiro faz com que não siga um caminho esperado pela produção. Estamos diante de um filme de apresentação truncada, cujos elementos nunca estão à disposição de maneira suficiente. Tais revelações também soam atabalhoadas, e é um problema igual de montagem o que se percebe, porque o filme não tem um ritmo definido nem uma mola propulsora de acontecimentos; as coisas são, e de repente deixam de ser, ou simplesmente retornam ao ponto inicial. Do jeito que se mostra, “Torniquete” parece que perdeu algo pelo caminho, se não na ilha de edição, pelo menos em atualizações do material escrito, que não se traduzem de maneira orgânica na tela.

No elenco, uma das maiores atrizes do país, Marieta Severo, divide espaço com Renata Grazzini e Sali Cimi. A segunda, vista ano passado no excepcional “Nó”, aqui está igualmente desafiada a entregar um trabalho excepcional, e o faz. Na verdade é do entrosamento entre esse trio que nasce grande parte das virtudes de “Torniquete”, um filme que nem sempre corresponde aos predicados que nascem da excelente sequência de abertura. Mas estão em tela todas as sensações que o filme pretende focar: a melancolia encontrada no vazio do tempo, os desafios que atravessam o corpo feminino constantemente violado, a sensação libertária de retornar à vida. Essa fagulha está lá.

3Nota do Crítico51

Conteúdo Adicional