A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere
Os estados da alma na visão de Regina Miranda
Por Fabricio Duque
Há quem diga que o melhor espetáculo de arte é aquele que não conseguimos definir, mas sim apenas senti-lo por completo, quando nos afeta, atravessa e corrompe as barreiras mais intransponíveis e protegidas de nossas emoções, em etéreas, pululantes e passionais transcendências de nossas almas patológicas e tão co-dependentes de faltas alheias. Essa arte vem existir em forma de transe catártico e de libertação de nossos limites (ainda) humanos. Sim, tudo proposto é um visceral e orgânico convite. Nós devemos aceitar e parar de conflitar para que assim possamos receber os ensaios-performances (de um cotidiano evocado) da multiartista Regina Miranda, que é, assumidamente, uma das seguidoras dessa arte acima de fluxo metafísico, porque não só busca a cada trabalho criar uma imersiva experiência sensorial, em micro-doses contra-efeitos iniciais a uma dominação total de permissões do olhar, mas essencialmente por fomentar e questionar o desconforto, de ressignificar a mudança ainda no campo da projeção, como se estivéssemos numa terapia de choque a la Lacan, que por sua vez encontra todo a vivência barroca das alusões de pertencimento (talvez uma tóxica utopia) dos indivíduos enquanto seres sociais.
Regina Miranda é mestre nisso e nisto: de nos rasgar por dentro pela sinestesia do universo a nosso redor. Em que uma cena observada é o estopim para desconstruir toda uma existência confortável. Sim, Regina é perigosa. Uma revolucionária. Uma loba em pele de ovelha. Ao instigar questionamentos, a artista coreógrafa planta a discórdia da perfeição da vida perfeita. Aqui, em seu mundo não há maniqueísmos, tampouco certos ou errados, mas somente a simples, velha e anciã humanidade. Regina sempre foi assim. E sua maestria está em sustentar todo esse seu caminho trilhado. Sua última “heresia” é o espetáculo (chamemos assim por falta de uma palavra melhor) “A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere” que aconteceu nos jardins do Museu de Arte Moderno do Rio de Janeiro, cuja primeira montagem foi em 1991, 35 anos atrás. Regina quis personificar em sensação “os estados da alma”, que retratam o Inferno, Purgatório e Paraíso (de “tamanhos infinitos dentro da gente, de como e quando a gente acessa”) do poema de Dante Alighieri. Esta montagem de 2026, em 75 minutos, trouxe de novo 22 atores/bailarinos do elenco original e mais uma centena de novos artistas, ocupando os 16.500m² dos jardins do MAM Rio. Sim, um projeto gigante e grandioso, que não poderia ter sido diferente. “Eu optei pelo grande. A gente entra com os grandes coros dramaturgos do Inferno, com os conjuntos performáticos no Purgatório, também atendendo a uma iconografia da A Divina Comédia que fala sobre multidões. Não há um tempo específico, são as almas de sempre desde que a humanidade existe. Tem que ser grande”, disse Regina Miranda, que complementou: “Quase trouxe o programa da primeira montagem, era gigantesco”.
“A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere”, deste ano, evento associado à Conferência Laban 2026, aconteceu no dia 30 de julho, em dois horários. E sim, podemos dizer que foi uma catarse. Um transe individualista (seguindo a linha de cada um sente de uma forma e a sua maneira) numa comoção coletiva (que nos envolvia em um conceito de abarcar solidões em um grande caldeirão-multidão). Sim, a ideia inicial de Regina de “transformar Inferno, Purgatório e Paraíso em experiências espaciais e sensoriais atravessadas pelas urgências contemporâneas” encontrou seu resultado mais que satisfatório, muito pelo fora, mas principalmente pelo nosso dentro, no meio separado e junto de eus, ao mesmo tempo macros e micros. O inferno como “os estados de desesperança frente a crises ambientais, visões extremadas de mundo e apagamentos culturais”; o Purgatório como “território de reflexão, esforço e reconstrução”; e o Paraíso como “a necessidade humana de imaginar e encarnar beleza, encontro e transcendência”. É, pois é, isso tudo que estou tentando fazer pode sim considerado sacrilégio e crime, porque busco definições e uma das coisas que toda e qualquer obra de Regina Miranda, inclusive esta em análise, nunca deveria ser racionalizada, muito menos analisada.
Assim, “A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere”, um texto mais que vivo e atual de 700 anos, é um estado de pausa. De suspensão da realidade. De se possuir a si mesmo. De desconstruir refúgios e arrebentar redes de proteção. A cada estágio do espetáculo, eu era convidado a me permitir deixar por um momento de ser eu mesmo. De adentrar metáforas lúdicas para reencontrar o que já perdi por estar cansado demais de continuar sustentando a verdade vital que recebemos quando somos vomitados. “A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere” celebra ainda os 45 anos de atuação e mais de 60 obras cênicas da Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos, reunindo seu núcleo artístico: Patrícia Niedermeier; Marina Salomon; Adriana Bonfatti; Ana Bevilaqua; Lígia Tourinho; e a própria diretora, Regina Miranda, artistas de várias gerações que ajudaram a construir a história da Cia. Sim, o dia 30/07 foi sublime e loucamente magnânimo e esplendoroso. Cada um ali entregou-se, numa repetição de ação e reação, que propositadamente buscava o esquecimento instantâneo. Talvez Dante tenha criado a sua Bíblia crítica e reversa do não esquecer. De que lembrar é a grande salvação.
Se essa experiência foi marcante e única, o público ainda tem uma nova “última” chance. Amanhã, 27 de setembro de 2026, em uma única sessão às 18:00, inclusive no dia de Cosme e Damião, “A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere” volta em outro lugar, um pouco reduzido, mas nunca menor. O espetáculo imersivo ocupa agora os espaços do Rio Scenarium com cerca de 80 atores/bailarinos, distribuídos em 28 performances simultâneas.
“A Divina Comédia: Ritrovai – Rivedere” tem trechos do poema “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri; de “Pernas Vazias” (2003); “Manuscritos de Leonardo” (2013); “Vertigem das Listas” (2014); “Medo e Prazer em Sintonia” (2016); “Naitsu” (2018); “Romola & Nijinsky” (2019); “Olhos da Pele” (2023); e “Rastros e Retornos” (2025), escritas por Regina Miranda e textos inéditos inspirados no poema de Dante, escritos pela autora para esta montagem. E textos adicionais: “Édipo e Eu” de Jitman Vibranovsky; e “Eu, Medeia” de Gabriel Bulcão, ambos em adaptação especial para esta montagem.




