Flana
Sobreviver é um ato de alegria
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Goitacá de Cinema 2026
“Flana” nos choca desde sua apresentação, que aparenta ser breve, mas reverbera e acumula em camadas a cada nova informação. No Iraque, o nascimento de bebês do sexo feminino é um acontecimento silencioso; enquanto o parto de meninos gera expectativa e alegria nas famílias, a chegada de uma nova menina no mundo é recebida com a ausência de som. No futuro breve, sorte terá a criança que não for violentada dentro e fora de casa, sofrer inúmeras represálias e maus tratos, e terminar sua infância e adolescência em um abrigo público. O filme é explícito no que está contando, indo até os eventos reais para especificar o tratamento diferenciado dado ao parto, e isso não tem a ver com as parteiras.
A diretora Zahraa Ghandour, como boa realizadora que demonstra ser, não está interessada em apenas um esclarecimento sobre essa realidade estarrecedora. Ela amplia o olhar e segue movendo suas lentes em direções que parecem diversas, mas que se alimentam e promovem um debate ainda mais amplo. Não é apenas a infância que se mostra horrorosa para qualquer mulher, e já sabemos que países como o Iraque não são algo parecido com o paraíso para o corpo feminino, mas o filme investe, e isso sim é raro, nas relações entre mulheres – mães e filhas, e mesmo os laços de amizade. Assim, “Flana” demonstra o horror coletivo em todas as idades de uma mulher, vivendo na constância do medo por inúmeros motivos.
Repleto de espaços vazios, Ghandour revela em “Flana” um universo que tem interesse em gradativamente ocupar, e esquecer suas origens históricas de dor e violência. Empaticamente, seu olhar é o de tratar tais cenários como elementos do passado, nem que sejam entre as figuras femininas, que precisam romper com tais ciclos de horror contínuo. Ao seu lado, temos essas personagens cujo empenho em ir além do que é sua área de colonização estão cada vez mais evidentes no plano. Não estão mais apenas no desejo do verbo, mas na ocupação de sua autora em traduzir esses dados como cenários históricos que precisam ser reconfigurados.
Está no encontro com sua tia, que se passa por sua mãe que não quer aparecer, uma das chaves que abrem o filme para o amanhã. Isso cria uma chave reflexiva que funciona como mais um código da ânsia pela liberdade que Ghandour anseia: seria a mãe uma dessas resistências ao futuro? Ao lado da vivacidade de sua tia, que ajudou a lhe criar (além de ser a parteira local), temos também o encontro da diretora com uma das jovens que passam pelo exemplo que o filme delineia, que é o degredo em abrigos públicos para meninas indesejadas por suas famílias – que no sistema iraquiano, é uma grande parte dos nascimentos. “Flana” costura essas experiências femininas em torno de uma representação de horror, para a posteriori complexificar tais vivências.
O que passa pelas frestas da narrativa é essa vontade de liberdade em todas as personagens que o filme mostra. É a não-aceitação da dor como ‘modus operandi’ da própria existência, é a ressignificação de tudo que é vivido hoje para refletir um novo amanhã. Não é esquecer tais dores; em determinado momento, a jovem que o filme encontra que sobreviveu ao abrigo recebe uma notícia que a devasta. Uma virada que não é própria do roteiro, mas especificamente da vida; sua reação é a de se entristecer, mas sem perder de vista seu foco principal, que é a de ser alguém maior do que podem lhe apregoar – ser uma vítima não é opção para ninguém em cena.
O que acaba contribuindo para que “Flana” seja uma celebração discreta é a própria natureza dos eventos, que seguem na direção desse esforço coletivo em seguir na jornada sem permitir que o horror seja o único aspecto de lembrança. E acima de tudo, como bem faz a tia de Ghandour, transformar os próximos partos e também os próximos nascimentos em sinônimos de alegria e esperança. Reconfigurar a própria imagem, rever as posições de afeto, mas manter-se fiel à vida e a essa direção única: não perder a História, mas redimir a nós mesmos com o que há de melhor em sobrevivência.




