Universo Circular – Jocy de Oliveira
O prazer do risco
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineOP 2026
Não há dúvida que o cinema brasileiro não só vive um grande momento (e nem é de hoje, mas pelo menos dos últimos 10/15 anos para cá, e de maneira crescente), como também não param de surgir autores cada vez mais corajosos. Ainda que muito conforto tenha se enraizado, um grupo de cineastas em diferentes formas de desassossego surgiram para tentar vias alternativas, ainda que muitas vezes sobre aparência tradicional. Dácio Pinheiro tem elaborado um olhar minucioso sobre personagens e/ou narrativas que não obedecem às regras vigentes. Seja em “Meu Amigo Cláudia” ou “O Aniversário do Seu Lair” ou “Lenita“, ele aponta para lados pouco ou nada óbvios diante de abordagens documentais ou ficcionais. Com “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, suas escolhas inusitadas partem já do encontro com a personagem.
Jocy de Oliveira é uma pianista clássica por formação, que de alguma maneira, desviou seu olhar para a música eletrônica, em sua experimentação de sonoridade. Nascia então um ‘objeto voador não identificado’ dentro de múltiplas áreas, porque a música erudita não comporta o que Jocy faz, nem a atribuição eletrônica por si só a contempla. Jocy, assim como a escolha anterior de Dácio, Lenita Perroy, é uma desviante; assim como são as escolhas formais do próprio Dácio. Investigar sua personagem-título, é encontrar um cineasta com sede do desconhecido, um raro detetive que desbrava lugares que não precisam ser confortáveis, ou esperados.
Falar de pioneirismo é um caminho, também ele, de identificação para Dácio. Olhar essa mulher, que nos últimos 70 anos só promoveu encontros espantosos (com Stravinsky, por exemplo), até encontrar-se longe de sua origem. O autor que tenta codificar os códigos distribuídos por Jocy cria um arco fechado em seu olhar; o mergulho no mar, piano e solista, é ao mesmo tempo o fim de um ciclo como o renascimento sob nova égide. Se “Universo Circular – Jocy de Oliveira” passeia por um teor reconhecível de formato, em esquema de relatos, fotografias, entrevistas, cartas, a própria Jocy é a figura dissonante, que teve – e ainda tem – uma vida cheia de glórias, porém em um recorte de exceção, e definitivamente nichado.
Olhando então para a busca pessoal de Pinheiro, os lugares que ele percorre ao pincelar seus escolhidos, e mover-se por essas frestas inesperadas, revelando tipos que precisam de luz, mas que nunca os tiveram, salta da tela um provocador. Em tempos onde as biografias contemplam astros e estrelas das artes, encontrar uma figura histórica dentro da erudição, e mergulhado nessa, mover suas lentes para o que são os desvios de cada um, é uma faísca que ilumina todo um setor. E ele coloca essas espécies de obsessões na tela, em torno de seres amantíssimos do que fazem, mas igualmente escavadores. Ou seja, de muitas formas, Pinheiro encontra no tanto de personagens que adentra, um reflexo fino de sua própria personalidade.
Na obra que segue uma musicista, figura emblemática pela maneira como conduziu a já citada obsessão, não é estranho que o trabalho sonoro seja um destaque. Nas mãos de alguém menos ousado, “Universo Circular – Jocy de Oliveira” seria uma peça comum que alardeia os feitos de sua homenageada. Com Pinheiro, o filme torna-se algo como uma experiência inebriante e muito arrojada, porque existe uma entrega digna na figura retratada. O filme avança em suas qualidades, e redobra as apostas, quando trata de mapear o trabalho de Jocy, que vai além de lugares comuns como “à frente do seu tempo”; metódica e detalhista, esses traços de personalidade estão muito bem demarcados em um trabalho de construção repleta da grandiloquência que se pede, sem perder os riscos que ela mesma correu.
Suas relações de trabalho, de família, o caráter formal de sua trajetória, não tem aqui o peso que teriam em uma abordagem tradicional; um exemplo é a presença de seu filho em uma cena posada logo no início, dando a entender que estaríamos diante daquele retrato mais vezes. Esse é o único momento dele em cena. Pinheiro segue assim, com a certeza de que nem sempre haverá rede de proteção embaixo de si, mas com a certeza que saberá lidar com as quedas que eventualmente acontecerão.




