Notturno

Entropia poética na fronteira do terror

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2020

“Eu queria que o filme fosse um filme de encontro… queria que o filme começasse onde a reportagem terminava, para seguir os padrões das fronteiras – aquelas fronteiras que durante anos foram de alguma forma dominadas pela violência, pelo medo, mas, ainda assim, as fronteiras estão cheias de vida… As pessoas que conheci foram completamente acidentais, momentos de pessoas passando, um rosto, uma situação, uma paisagem”. É dessa maneira que o realizador Gianfranco Rosi definiu “Notturno”, documentário-poético sobre a maior explosão de violência ocorrida até hoje no século 21, a incubação e formação do “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” (ou “Estado Islâmico do Iraque e da Síria”), conhecido pelo acrônimo em inglês, ISIS. Rosi passou três anos circulando pela linha fronteiriça do ISIS dentro dos países da região, Síria, Iraque, Curdistão e Líbano, acompanhado de assistentes locais (um de cada vez) e imergindo sua câmera (ele é o fotógrafo dos seus filmes) nas circunstâncias que se apresentavam. Em 2014, depois de pelo menos uma década de gestação, o ISIS – uma coalizão de diversas organizações extremistas – autoproclamou-se “Califado Islâmico”, ocupando uma área maior do que a Síria, com porções de vários países. Somente em 2016 começou a perder território, principalmente devido à intervenção estrangeira no Iraque e na Síria. Em março de 2019, o Califado foi destruído na batalha de Baghouz, na Síria.

“Notturno” é também um projeto humanitário, no sentido mais radical do termo, avesso a ideologias e oportunismos. Tarefa difícil, o terreno é minado, literal e metaforicamente. Rosi fala de uma “iminência permanente de destruição e morte” nessas paragens fronteiriças, onde a sensação é de desamparo total. Seu projeto, entretanto, não se propõe a mobilizar ninguém: “A ideia de que faço ‘filme político’ é um rótulo que esvazia a poética da observação e a minha relação com as dinâmicas das relações sociais. Um rótulo que impõe à não ficção a obrigação de ser um manifesto. Discordo. O documentário é um espaço de experimentação dos mais ricos como exercício de linguagem”. Em “Notturno” não há narração, o silêncio pontua a organização das cenas em blocos, assim como um intervalo entre duas notas musicais pressupõe uma suspensão de tonalidade, favorecendo a sensação de lacunas, memórias e perdas. Ambientadas em pequenas comunidades no Líbano, Síria, Curdistão e Iraque, as imagens – sempre transparecendo a imersão da câmera, do sujeito que segura a câmera e enquadra a cena – não se encadeiam, não manipulam uma relação de causa e efeito, simplesmente observam, do ponto de vista privilegiado de quem obteve a cumplicidade e a adesão do objeto filmado. Os momentos pontiagudos desse fluxo são os cortes entre blocos, articulando saltos entre ambientes – culto, trabalho, vigilância militar, luto, vida doméstica, arroubos individuais, enfim, o cotidiano das pessoas que ficaram. A guerra, esse limiar do real que prenuncia a morte, está longe, além da linha do horizonte das imensas planícies desérticas, pressentida apenas como resíduo de destruição.

O “Estado Islâmico” cresceu no desdobramento da “primavera árabe” que atingiu vários países do Oriente Médio, e consolidou-se em paralelo à guerra civil na Síria e à desestabilização do Iraque promovida pela invasão americana de George Bush. Sua autoatribuída missão era obrigar as pessoas que viviam nas áreas que controlava a se converterem ao islamismo, de acordo com a interpretação sunita da religião e sob a lei charia (o código de leis islâmico). Aqueles que se recusavam sofreriam torturas e mutilações, ou seriam condenados à morte, em execuções espetacularizadas eventualmente transmitidas no Youtube. A violência era sobretudo dirigida contra muçulmanos xiitas, cristãos armênios e assírios, iazidis, drusos, shabaks e mandeanos, todos, à exceção dos primeiros, pequenos grupos étnico-religiosos disseminados pela região. Os iazidis, por exemplo: comunidade curda cujos membros praticam uma antiga religião sincrética ligada ao zoroastrismo e a antigas religiões da Mesopotâmia, vivem espalhados pelo mundo, com concentrações na Síria e norte do Iraque, em torno da cidade de Mossul, considerada a “capital cultural” do ISIS. Milhares de iazidis foram assassinados, outros milhares escravizados: mulheres foram sequestradas e vendidas como escravas sexuais. Uma das sequências de “Notturno” mostra uma terapeuta trabalhando com crianças que testemunharam ou sofreram tortura e desenham suas memórias. O clichê do desenho infantil como peça melodramática, usado à exaustão no cinema, adquire aqui uma concretude inédita: é a representação direta do que está do outro lado da linha do horizonte, testemunho ocular através de olhos infantis. Próximas a esse horizonte estão as guerreiras “peshmerga” – em curdo, “aqueles que enfrentam a morte” – sobreviventes dos massacres e ex-escravas sexuais transformadas em soldados, captadas em sua rotina militar de vigilância.

Gianfranco Rosi costuma delimitar um perímetro espacial de investigação poético-documental, antes e durante as filmagens, que se realizam sob o signo do encontro aleatório, tal como ele define. Seu filme premiado em 2013 com o Leão de Ouro em Veneza, “Sacro GRA”, move-se no anel rodoviário de Roma e adjacências (foi a primeira vez que um documentário ganhou em Veneza, júri presidido por Bernardo Bertolucci). Em “Fogo no Mar”, o perímetro é a ilha de Lampedusa, destino incerto dos imigrantes que tentam entrar na Europa pela Itália (ganhou o Urso de Ouro em Berlim, 2016). “El Sicario, Room 164”, de 2010, é um huis clos no quarto número 164 com um ex-sicário do narcotráfico mexicano. A despeito de ter sido derrotado em 2019, o ISIS não foi extinto, pelo contrário, sinais recentes – ou seja, ataques terroristas – indicam sua presença não apenas nos bastiões tradicionais, mas também em países como Afeganistão e Moçambique. Em janeiro passado, o governo Biden patrocinou ataque aéreo que matou um líder do grupo, perto de Kirkuk, no Iraque. “Notturno” circunscreve as fronteiras, imaginárias ou não, do “Estado Islâmico”, e recupera um terreno simbólico onde convivem culturas milenares e passado recente colonial, ameaçados por um presente que se afigura devastador.

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