Doutor Monstro

Besta (e) fera 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026

Doutor Monstro

Filme da abertura da mostra competitiva do Cine-PE – Festival do Audivisual 2026 em sua edição comemorativa de 30 anos, qualquer pessoa com experiência de curadoria selecionaria “Doutor Monstro” para uma seleção de festival. Os nomes estelares de Taís Araújo e Marat Descartes, o talento de ambos igualmente presente, o nome de Marcos Jorge (“Estômago”) na direção, a premissa baseada em eventos muito pertinente para discussões acaloradas e ainda não completamente desfolhadas pelo cinema contemporâneo. Tudo está ali, e não há qualquer problema nisso; já as escolhas tonais de uma forma coletiva, tanto para a escrita do roteiro quanto para para o coletivo de sua mise-en-scène, não está no mesmo lugar que suas intenções, e o que esperaríamos de um projeto com suas intenções tão aparentemente claras.

“Doutor Monstro”, entendemos, é baseado no(s) crime(s) cometido(s) por Farah Jorge Farah, um médico de atendimento em clínicas gerais, foi condenado pelo assassinato e posterior esquartejamento de uma paciente sua, cometido em 2003, cuja condenação só foi acontecer em 2014. Jorge tenta ouvir as vozes que habitam a cabeça desse homem, mas isso não fica claro no seu disparo inicial, e lá pela metade percebemos que esse era o caminho. Era? Não fica claro, mas o benefício da dúvida ele tem. Ainda assim, é no mínimo incompreensível que uma produção que sequer passeie por esse lugar, parte de uma abordagem tão exagerada que soe cômico em seus excessos. Isso seria a aproximação mais óbvia ou adequada? Não, mas o filme sequer cria coragem para seguir com esse pé no acelerador.

Então temos Farah, seu encontro com Carmen (a futura vítima) e uma dedicação aplicada ao que será servido pelo criminoso. Em outra fatia da produção, Cláudia é a promotora que se dedica ao que qualquer ser humano se debruçaria: a reclusão desse homem pelo maior regime possível. O que poderia (e até desejaria) ser, um filme de tribunal mais tradicional, é traído pela ânsia de conectar muitas vozes de narração ao projeto. Porque também temos o advogado de defesa para desdobrar, vivido com garra nas raias do mau-caratismo por Guilherme Weber. Em uma cena inexplicável, tal personagem, em uma roda de amigos em um jantar, tenta explicar sua visão pragmática das coisas, como sendo um homem contratado para defender e que isto será feito com o máximo de empenho. Até aí nada bom, mas o tipo e sua lábia consegue convencer (e terminar a noite com um bom vinho) as duas mulheres presentes com sua visão tão prática quanto cafajeste; o problema não é que ele tente fazê-lo, mas que nos dias de hoje o filme entenda que ele consiga.

Mas as questões morais do filme não são um problema; seu desentendimento narrativo sim. O filme acaba por elencar Farah como seu protagonista, e isso inclui retirar dos outros dos personagens suas subjetividades, sua vida própria para além das agendas particulares. Não estamos diante de pessoas reais, mas de arquétipos de um tempo e de um recorte social. Ao não dar base principalmente para Cláudia, o filme parece relativizar sua razão, como se todas as coisas acertadas que a personagem discorre durante o filme fossem elas também capazes de abrir debates ambíguos. “Doutor Monstro” compõe mesmo seu denominado protagonista também em faltas, como uma espécie de obsessão pela mãe que o personagem adquire em determinado momento, ou apenas quando o filme precisa que isso aconteça, ou que o roteiro funcione ao bom funcionamento das conveniências.

Os valores de produção expostos em “Doutor Monstro” tem seu valor, como a boa montagem que permite a criação da melhor cena do filme, quando os advogados leem suas palavras finais durante o julgamento. Ali, o filme mostra o que poderia ter acontecido se usasse o equilíbrio, se o roteiro fosse escrito com menor número de frases feitas e chavões de todas as ordens. Ou quando a direção entender que não tem como ser absolutamente ‘camp’ com algo tão aterrador, e ao mesmo tempo não provocar o debate a partir de uma apresentação que pode inclusive dar voz à seres de igual posições, que vejam seus interesses ali abraçados. Além de interminável inexplicavelmente, já que apenas corrobora uma aura de vitimização a um tipo cuja defesa inexiste; a cena dos adolescentes praticando bullying contra Farah, sabendo de sua lista de crimes, é um resumo de um discurso que não tinha como dar certo.

O ponto ainda mais incômodo do filme é essa leitura de Farah Jorge como um homem cheio de contradições, delírios e ausências. O personagem real era um poço de caricatice, com elementos suficientes para tornar qualquer produção em um desfile de tiques e muletas interpretativas. A bem da verdade é que Descartes prova aqui sua integridade, porque tenta com unhas e dentes fugir de um recorte estereotipado fisicamente e emocionalmente, mas a verdade é que muitas vezes isso mostra-se impossível por causa da natureza da própria figura. Mas o tônus que Jorge imprime ao filme soterra ainda mais um ator que é dos maiores nossos há bem uns 15 anos. Não tendo arcabouço para ir além do óbvio, Descartes, Araújo e Weber se viram como podem em um projeto mais do que acertado, mas cujos excessos implodiu suas chances.

1Nota do Crítico51

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