Irritante Prodígio

Luiza por dentro e por fora 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a CineOP 2026

Irritante Prodígio

Não sabemos se alguém estava pronto para a sessão de “Irritante Prodígio” na CineOP 2026. Em muitos momentos de uma franqueza desconcertante, o filme da jovem estreante Luiza Lindner é radical em como a cineasta vai olhar para sua própria história, que vai além das questões de saúde mental – que já é obviamente algo muito complexo. Apesar de defendê-los o tempo todo, Luiza coloca na berlinda todo o seu núcleo familiar direto, em motivação que parece refletir outros filmes recentes com resultados melhores ou piores. A produção eleva os resultados de uma filmagem em primeira pessoa até os limites do imaginável, apontando um lugar para o espectador de testemunha de um desnudamento psicológico que tem intenção de ir além do expurgo puro e simples.

Hoje com 22 anos, Luiza ultrapassou uma barreira aos 10 anos de idade, quando seu gradativo desconforto social se transformava em um vilão disposto a acabar com sua vida. Ao começar a perder peso descontroladamente antes mesmo de atingir a puberdade, sua família não percebe o processo ao qual a pequena Luiza entrou, e os tratamentos que a envolvem nunca chegam ao lugar certo. “Irritante Prodígio” começou a ser realizado pela jovem diretora aos 17 anos, quando ela já começava a se interessar em criar para si própria as respostas que não conseguia ter no sistema de saúde. O convite para mergulhar junto dela em sua existência é assustador por muitas vezes, mas a ideia de avançar junto com a personagem é o que poderia ser mais acertado.

Todo capitaneado por Luiza, o filme tem um trabalho de montagem que transforma a narrativa em uma filial do caos que acomete a protagonista. Com isso, demora um bocado para que tenhamos sossego em “Irritante Prodígio”, seja ele intelectual ou emocional. Isso não pode ser visto como um defeito, ou um tormento para o espectador, ou melhor, estar na pele de Luiza é o que o filme consegue fazer (nem tanto quanto gostaria) de melhor, nos esfregando empatia na cara. É um jogo de risco esse que a jovem tenta aplicar em quem se esforça junto com ela, mas cabe muito no público se colocar naquela pele, que está exposta e clamando por ajuda o tempo inteiro.

Luiza realizou esse filme que se comunica entre a complexidade das imagens compiladas, produzidas e exibidas, para um diagnóstico emocional que é comum a tantos jovens. Ela entende que “Irritante Prodígio” é também um material de alerta entre seus espectadores, mas não resolveu fazer uma simples peça de auto ajuda, e sim produziu um filme de cinema com uma abordagem direta. No caminho, ela realiza algo parecido com o que Sarah Polley fez em “Histórias que Contamos”, e colocou pai, mãe e irmã na mesma confrontação que ela. Estão os três diante de imagens que não os definem, mas que produzem, em conjunto, um somatório de experiências que, entre muitas coisas, contribuem para o afastamento de certeza em diagnósticos e aumentam as barreiras nas relações familiares.

“Irritante Prodígio” não é sempre assertivo. Luiza é uma personagem que cria um ambiente de repetição para a cineasta Luiza, que precisaria ter se permitido mais no trabalho de montagem, não se ver tão apegada assim às imagens. A reta final do filme, por exemplo, ele sai do campo da elucidação para a redundância, e o que poderia ser enxuto e conciso, acaba se mostrando prolixo. Como se trata de um primeiro trabalho de uma jovem que tem muito trabalho pela frente, podemos entender que trata-se de um movimento ainda ingênuo de colocar tudo o que foi concebido no ar, sem necessidade. Como primeiro movimento de autoria, temos uma estreia promissora.

Na tensão escancarada pelo filme, que passeia por uma grave necessidade de diagnóstico que não sai, e por uma onda de ressentimento em pasmos, “Irritante Prodígio” é uma tentativa clara de ler e traduzir o interior de um ser em constante possibilidade de surto. Após 1 h de contínuos mergulhos em uma personalidade construída por cacos, não incomoda que o filme movimente seu jogo sempre para a mesma direção. Porque é uma vontade particular de colar quem está assistindo a quem está sofrendo, do lado de dentro da tela; é tão palpável o que salta das imagens, através da acepção literal de seu título. É um mérito enorme que o filme salte com tanta força, a ponto de que tenhamos sensações conflituosas ao final, amor e incômodo na mesma exata medida.

3Nota do Crítico51

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