Vida Privada

A psicanalista que virou detetive e reatou com o ex

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Vida Privada

Vida Privada”, longa da diretora francesa Rebecca Zlotowski, é um filme de gênero, ou melhor, de camadas de gêneros. Se o gênero funciona na indústria do entretenimento audiovisual como estratégia para acomodar o espectador em um mundo reconhecível, no caso em tela a mixagem de gêneros acomoda e desorienta o espectador, construindo uma narrativa prazerosa e intrigante ao mesmo tempo. Não é uma proposta fácil, requer habilidade para controlar diversos aspectos da realização, desde o roteiro até a direção de atores e atrizes. A chance de escorregar está sempre ali, à espreita.

Rebecca Zlotowski parece ter se beneficiado de uma atmosfera bem azeitada para levar a cabo seu projeto, méritos inegáveis dela. Começando pelo casting: como dizia Orson Welles, a direção começa no casting. Escolher (e conseguir) a adesão de Jodie Foster foi fundamental, tudo o que se passa nessa história gira em torno da mente de sua personagem, a psiquiatra/psicanalista Lilian Steiner, uma judia americana há quarenta anos morando em Paris, onde casou e separou com Gabriel Haddad (Daniel Auteuil), teve o filho Julien (Vincent Lacoste) e agora acaba de ter um neto. Tudo bem, tudo normal, até que um acontecimento desarticula a realidade cartesiana que organiza a vida de Lilian. Uma “Vida Privada”, enfim.

Uma paciente de nove anos (!?!), Paula Cohen-Solal (Virginie Efira), falta a três sessões seguidas. Lilian, no alto da prepotência dos analistas, deixa uma mensagem lacônica no répondeur de Paula, lembrando que ausências serão cobradas inapelavelmente. Um outro paciente, também de anos, aparece e se queixa sobre o fracasso do principal objetivo de sua análise: parar de fumar. Sob insistência da mulher, foi a uma hipnotizadora, pagou 50 euros e em uma sessão se curou – no consultório de Lilian, foram 40 mil euros e o resultado nulo.

Captar esse pequeno desafio ao seu saber psicanalítico foi, em princípio, coisa fácil. Pierre (Noam Morgensztern), o tabagista, aparece no filme como um personagem superficial e algo cômico, situação que os espectadores estão cansados de ver. Não há razões para desespero. É quando a filha de Paula, Valérie (Luàna Bajrami), telefona e comunica o suicídio da mãe. A racionalidade da psicanalista começa a desabar: ela vai ao velório na casa da família judaica de Paula e é expulsa do recinto aos gritos pelo marido da falecida, Simon (Mathieu Amalric).

Por uma dessas razões que a própria razão desconhece, Lilian começa a derramar uma lágrima ininterruptamente. Como isso pode acontecer? Ela corre para o um oftalmologista, no caso seu ex-marido, que lhe garante: não há nada de errado. Atônita, resolve procurar a hipnotizadora, uma rival no campo terapêutico que ela, naturalmente, despreza. Mas submete-se à hipnose, resmungando, e embarca em um sonho fantástico – uma verdadeira interrupção narrativa, como aquela que Salvador Dalí montou para o filme de Hitchcock, no clássico “Quando Fala o Coração”, de 1945. Um sonho realista, que pretendia decifrar o trauma do protagonista.

Vida Privada”, nessa altura do campeonato, acumula comédia, thriller psicológico e prepara-se para adentrar em outro gênero, filme noir de detetive. Lilian começa a suspeitar que a paciente foi assassinada. A razão freudiana de Lilian transmuta-se em razão detetivesca, e para isso nada melhor do que contar com o apoio incondicional de Gabriel, o ex que não esconde a carga afetiva que nutre por ela. E mais um gênero irrompe na tela: um filme de amor, realçado pela química de dois experientes e talentosos intérpretes.

Jodie Foster, falando um francês perfeito, construiu sua personagem com a habitual perspicácia. De certa maneira, ela passa de analista a analisanda, na medida em que seu corpo envia mensagens contraditórias, começando pelas lágrimas. Em um certo momento, ela visita seu mentor na psicanálise, Dr. Goldstein, interpretado pelo documentarista Frederick Wiseman, que é taxativo: em vez de aceitar sua própria responsabilidade ou negligência, Lilian busca outras explicações. Ela falhou no tratamento de seus pacientes, a despeito dos anos de prática analítica.

Um filme psicanalítico, também. Lilian segue segura de si, apesar de o mundo à sua volta, inclusive a audiência, ter dúvidas quanto aos caminhos que ela procura. Cada passo na sua investigação sugere que os limites éticos de sua atividade são postos de lado. No limite, ela não ouve, ou não decifra, o que os outros a alertam.

A mão firme de Zlotowski é a fiadora última da excentricidade harmoniosa que caracteriza a vida privada de Lilian Steiner.

4Nota do Crítico51

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