Resta Um

Pelos olhos de um futuro que é hoje 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026

Resta Um

E se no futuro as pessoas perdessem seus direitos civis e fossem obrigadas a se digladiar via internet, até que só restasse um – o outro, obviamente, seria executado ao vivo? Bom… “Resta Um”, estreia na direção do ator Fernando Ceylão e que compete no Cine PE 2026, a cada novo avanço narrativo, ao invés de se afastar do mundo onde vivemos e como conhecemos, se aproxima. É um caso raro, onde a agudeza dos eventos que emolduram um outro tempo, ao invés de perder as características de metáfora, se aproximam de um lugar comum muito próximo ao nosso cotidiano. Isso é um dos muitos ganhos desse roteiro que, na tentativa de criar um jogo futurista, acaba comunicando-se com o presente, inclusive para alertar sobre o caos político que vem aí esse ano. Sim, “Resta Um” é um filme político.

Enquanto parábolas hollywoodianas como “Jogos Vorazes” e “Divergente” parecem querer inserir a conotação política a partir do entretenimento – e conseguindo outro aspecto de debate por isso – aqui a dita diversão que já nos habita regularmente é a porta de entrada para a reflexão, que também já é pauta do dia. O interessante é observar que o roteiro de Ceylão, dramaturgo conceituado, não perde o fio da meada quando confrontado com códigos de coerência. O exemplo óbvio é a ponte que o protagonista organiza logo de primeira para acessar o que hoje é um artigo de luxo e proibido: a internet; isso não é deixado de lado, e o filme cobra essa posição muito rapidamente. Ou seja, não falta ao roteirista o empenho da coesão.

O que talvez lhe falte é tempo. “Resta Um” foi rodado em 11 dias, uma produção que embora seja visivelmente discreta e econômica, não é acanhada ou pequena. Ou seja, estamos diante de um produto de primeira grandeza em valor de produção, que precisa lidar com a escassez de recursos no que concerne exatamente ao seu tempo. O resultado na tela é a borra que ilustra a opacidade dos contornos de seu (poderoso) protagonista, Álvaro, vivido pelo sempre especial Caco Ciocler. Estamos diante de um protagonista cheio de camadas, complexo em sua rede possível de escolhas, que vai ficando cada vez mais cinza ao sentir uma valorização que sua baixa auto-estima não o tinha feito perceber antes. Ciocler dá conta de curvas muito acentuadas de composição, mas o filme em si soa abrupto na colocação dessas mesmas dinâmicas.

Não há racionalidade que convença o espectador de chaves que são viradas de uma cena para outra, embora o ator dê conta de mapear as possibilidades de nuances, que são muitas e muito rápidas. Isso se dá por conta dessas diárias enxutas, que precisavam abarcar muitas coisas em pouco tempo de construção. Não é como se o filme sobrevivesse ao desastre, e que esse seja um erro crucial, mas é sim um apontamento que precisa ser feito. Para uma primeira apresentação que Ceylão se propôs, no ritmo frenético de entregar um filme com coração enorme mas bolso diminuto, o que está em cena vai além das possibilidades. “Resta Um” é uma ficção científica, em tese, talvez o gênero que menos tenha sido produzido no Brasil; ele existir com a quantidade de valores de produção que tem, sem apelar para o ridículo e com um arsenal de possibilidades, o quadro é mais que positivo.

Ao lado desse exigido Ciocler, que apresenta humanidade e ferocidade graduais, se juntam uma dupla de dínamos, Ítalo Martins e Maria Ribeiro. Ítalo é um dos amigos do protagonista, que acaba sendo igualmente co-optado para as malhas de uma armadilha cruel; o rapaz, que é uma espécie de coqueluche do momento, justifica as opções do cinema hoje nele, com segurança e entrega. Maria é um caso à parte porque o cinema nem sempre a escala, e isso se mostra injustificável quando um filme como esse nos bate à porta. A protagonista de “Como Nossos Pais” é uma das mais interessantes atrizes naturalistas da atualidade, e sua embocadura muito particular une ela e Ciocler a uma química inquestionável. Ambos enormes, e capazes de produzir esse mesmo material com diferentes intérpretes, juntos mostram uma força sensível para que possamos acreditar em cada sequência e diálogo de ambos.

Com uma direção de arte exemplar, que consegue não apenas dar personalidade ao exíguo espaço que é cenário do filme como encerrá-los em um cubículo que só respira angústia, e a fotografia para restituir ao filme a certeza da melhor luz e dos mais adequados enquadramentos, a decupagem de “Resta Um” também é um achado. Ou seja, é uma estreia fora do comum para Ceylão, que parece já situar-se de maneira bastante eficiente no seu novo dispositivo. Que ele já tenha outros dois filmes já prontos, mostra que, independente das estreias, sua capacidade foi provada antes do teste inicial. Se o cuidado permanecer o mesmo, como aqui, é sinal de que a cinematografia nacional acaba de ganhar alguém promissor, que tem o que dizer e sabe como filmar.

3Nota do Crítico51