Os Arcos Dourados de Olinda
O revés da dominação
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026
Tudo o que poderia ser utilizado contra “Os Arcos Dourados de Olinda”, em contrapartida podem também ser observados a partir de uma única resposta: ‘e porquê não?’. As acusações que conseguiria ouvir de colegas e de análises, podem apontar para lugares diversos. Podem ir até o fato de que a estrutura do filme não é muito diferente de vários já vistos, ou seja, não existe algo exatamente original em cena; com a proposta política da produção ser, de alguma maneira, suavizada pela leveza proposta na narrativa; em entender o formato de filme-ensaio como algo restrito ao experimentalismo, e não ao formalismo. Como disse acima, e porquê não? Nada muda a experiência de assistir ao que Douglas Henrique nos apresenta com o prazer proposto.
Existe um tom de farsa dentro do documentário que, por si só, engaja o público menos afeito ao gênero, mas que essencialmente não tenta maquiar a realidade. E estamos falando de uma produção onde o arquivo não tenta parecer real; ele o é. Quando cito farsa, quero dizer do tom adotado para narrar tais eventos, no campo de possibilidades de seus encaminhamentos e da maneira jocosa com que a eterna tentativa de dominação estadunidense é encarada em tela. Nada ali é forjado pelo roteiro, e sim faz parte do todo para instituir uma análise natural no projeto; além de ter um belo teor nacionalista, em tempos em que políticos abertamente querem entregar nossa riqueza individual.
Ou seja, a manutenção da comicidade de “Os Arcos Dourados de Olinda” não suprime seu valor político, e talvez até redimensione o mesmo. A observação vai muito além do que aconteceu no Brasil, e mostra uma análise saudável sobre o país que deseja a dominação mundial, e que para isso provoca um adentrar histórico sobre as culturas locais e seus ideais de nacionalismo. São situações não divergentes, mas exatamente complementares de um aspecto sócio-político para ocupar nossa memória em ano de eleição, para onde essa dominação pretende mover-se de maneira insidiosa. Henrique entende essa questão e joga de forma aparentemente despretensiosa um debate muito mais amplo do que uma sinopse revela a respeito.
O trabalho de montagem e de arquivo do filme é exemplar, porque reúne situações que não estão apenas na cidade-título, e se espalham por uma ideia não-regional. Henrique é também responsável por esse setor, o que demonstra seu amplo lugar de autor de um projeto tão ambicioso quanto cuidadoso. Ele situa um evento local de maneira global, e com isso acaba falando muito mais do que sua aldeia, como tradicionalmente acontece. Ao mostrar um dos raros casos de falência de uma rede global em sua influência através de uma pesquisa rica em resultados, “Os Arcos Dourados de Olinda” se aproxima das denúncias que tradicionalmente ancoram-se em debates além das cercanias que ele representa, e comunicando sua descoberta com a eficiência de quem sabe o que está representando.
A cereja do bolo é a narração de Giordano Castro. Ator recheado de predicados, um dos protagonistas de “A Vida Secreta de Meus Três Homens” e integrante da Cia Magiluth de Teatro, Castro consegue algo raro: tornar não apenas sedutor o seu trabalho, como dar personalidade a um trabalho que muitas vezes é diminuído pela análise. A narração que ele personaliza em “Os Arcos Dourados de Olinda” não apenas mostra suas capacidades de ator, como elencam as qualidades do próprio filme. É ele o responsável por angariar o tom certo entre a brincadeira, o deboche e a realidade palpável do que está sendo contado; sua pronúncia da palavra-chave do filme – McDonald’s – é um achado que já vale todos os elogios, e que dão ao filme parte da dimensão que ele já tem.




