Mercado Central

Paixão e morte em ordens periféricas

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026

Mercado Central

O cinema brasileiro não é desprovido de constantes descobertas; algumas vezes, não percebemos estar diante de uma luz rara prestes a nascer. A sensação ao assistir a “Mercado Central” é essa: Tássia Dhur, sua diretora, roteirista e atriz, é algo ainda difícil de classificar. Na possibilidade de erro, precisamos no mínimo prestar atenção a ela, que já tem um longa-metragem rodado. Aqui, a competição do Cine PE 2026 nos possibilita um encontro dos mais sensoriais, onde paixão, desejo, morte, liberdade e repressão caminham juntos. Como isso tudo pode caber em título com menos de 20 minutos de duração, é justamente aí que a demonstração de seus méritos torna-se evidente, deixando nossa curiosidade a postos tratando das soluções pretendidas.

“Mercado Central” é um daqueles organismos vivos, uma produção que não vive em apenas uma sessão; precisa-se de no mínimo duas para que consigamos concatenar toda a sorte de personagens, elementos e pontos de partida (alguns sem chegada) em ponto de ebulição. Não é uma vontade de desvendar algum ponto obscuro implícito ali, mas sim a vontade de sentir mais com o que está em vias de ser contado. É um filme evidentemente sujo, com textura suada e quase porco, mas o que é revelado por aqueles personagens vai além do que é concreto. Existe o desejo de amar e ser amado, mas raras são as vezes onde os seres da tela executam o que dizem sem contradições.

Dhur é uma figura prestes a compreender sua filmografia, sua paixão pelo que faz. Realizou um filme que é literalmente uma porrada seca na cara de quem está do lado de fora do telão. “Mercado Central” vive desse fogo intenso que é liberado em um parto, em um beijo, em um assassinato, nas relações humanas viciadas por um jogo em ruínas. O talento da sua autora nos faz adentrar um quase em 4D: flashes de realismo dentro de uma estetização natural, o filme está vivo em sua proposta. É o suor azedo, é o sexo permeado pela violência, é o cheiro metálico do sangue, é a água suja do chão, e ainda consegue unir isso tudo sem a ajuda do John Waters.

Além disso, a cultura desse ponto de encontro periférico está em dia aqui. Um lugar com tendências machistas, que comumente diminuiu figuras femininas, usou da homofobia para reafirmar suas violências; um lugar habitado por homens. Mas ainda que suas histórias beirem o insalubre, mas que também está na pauta do dia o afeto a quem podem se dedicar. Esse afeto, que não é tradicional dali, precisa que seja permitido acessar – no caso das mulheres – ou sufocá-lo, afinal “carinho não é coisa de homem”. Para isso, “Mercado Central” mostra bem o surgimento desse antagonismo para que Dhur explore as possibilidades dessa escavação, seja projetando o amanhã ou fabulando de maneira menos óbvia.

Como uma mistura de Jorge Furtado com Cláudio Assis, Dhur carrega propriedade nas imagens que a livram de comparações diretas. As pinceladas fazem parte do imaginário que habita a cinefilia, sem conseguir demonstrar-se além da inspiração memorial, e complementam de forma colorida essa representação. No entanto, a conversa ocorre através das paisagens emocionais formadas pelas partículas de histórias que transitam umas pelas outras. Por isso a urgência do desejo em “Mercado Central” é tão maior do que a construção romântica, porque a periferia é menor e não merece subjetividade. Essa é a fala do passado; hoje, temos uma diretora corajosa mostrando mulheres que se masturbam e homens que reprimem uma face de dor pelo que não se é.

A crueza dos eventos é um achado igualmente saudável para o nosso cinema, que precisa entender que a diversidade deve ser coletiva, do gênero ao geográfico. Tudo que acontece de criminoso em cena, aqui, é a expressão artística de uma potência que se nega a ser apagada; estamos diante de mulheres exuberantes e vivas, e homens cuja covardia não os destituem de força, mas definitivamente os colocam como minúsculos. “Mercado Central”, acima de tudo, é uma obra cheia de vivacidade por um passado do qual lembramos através de uma memória que nem sabemos mais ser verídica. As cores, os cheiros, os gostos, estão todos lá, em cenas que nos enche a boca d’água, de vontade ou nojo. Um filme de gente grande, que revela, talvez, a próxima grande coisa do cinema brasileiro: Tássia Dhur.

4Nota do Crítico51