Olhe Para Mim

A lógica dos encontros 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Olhe Para Mim

Fui apresentado a Rafhael Barbosa há 6 anos, quando do lançamento de “Cavalo“, longa documental co-dirigido por Werner Salles e que situa nosso olhar para questões poéticas provenientes de religiões de matriz africana. Ali, o cineasta já sugeria algum interesse estético-fabular em torno dessas fundamentações, deixando no espectador um gancho para sua próxima aparição. “Olhe Para Mim” é sua estreia em longa de ficção, mas sua sensibilidade com a fábula, que ele conseguiu demonstrar em um documentário, aqui se torna ainda mais evidente. Mais uma vez tratando do símbolo que envolve religiões ligadas a África, consigo observar um abraço ao sincretismo que ainda promove mais beleza ao que ele comunica.

O filme concatena o encontro entre um mundo cheio de dúvidas e um outro que até fornece respostas e ensinamentos, mas muito mais que isso: permite ao seu  protagonista a possibilidade de crescer emocionalmente com as armas que lhe forem confiadas. “Olhe Para Mim” é daquelas experiências completas, onde as sinapses de aprendizado crescem conjuntamente com o que é defendido pela narrativa. É um passeio por um universo provavelmente muito conhecido por Barbosa, que não está sendo generoso em compartilhar conhecimento: seu desejo aqui é construir narrativa mesmo, ainda que ela não seja de abrangência rápida. Na verdade, o universo que é apresentado para seus três protagonistas é tão rico, que uma segunda sessão para o filme será sempre a melhor.

Na falta do que seria desejado, vamos ao que é possível. Nos englobamos então à beleza do encontro, não apenas entre almas afins, mas precisamente do vazio que era então vivido, para uma sensação de pertencimento. Marcelo é um jovem que perambula entre o desaparecimento para onde foi arremessado e sua ânsia por ter, saber, conhecer, entender – a si mesmo, para começar, e ao seu redor igualmente. Ele experimenta gêneros, espaços geográficos, troca de pele, mostra-se mutante a cada novo enquadramento. Até esbarrar com uma dupla, mãe e filho, que tem as respostas que ele não tem, mas elas não estão no concreto, mas sim no abraço do simbólico, ao mergulhar no Brasil profundo literalmente. Da desconfiança inicial de ambas as partes, nasce um conciliador entre opostos que vai ajudá-los a perceber sua força conjunta.

A forma escandalosa com que Barbosa e seu fotógrafo, Roberto Iuri (não esqueça esse nome!), iluminam e criam os planos, a luz necessária, e a ambientação correta em “Olhe Para Mim” é, por si só, um convite à força inexorável da beleza. Parte do encontro entre eles, como já tinha acontecido em “Cavalo”, o que pode carregar o espectador para dentro do que está sendo absorvido, muito mais do que compreendido. É o desabrochar de um admirável mundo novo, de respeito ao outro e sua voz, do respeito à brutalidade da natureza, do encontro com uma fauna mágica que reside tanto de maneira concreta, quanto espiritual. Tudo parece se encaminhar para o momento onde a representação da ‘rasga mortalha’ enfim surge; esse tipo específico de coruja é também uma lenda urbana, que se encaixa com perfeição no filme em suas duas leituras. Ela é o desejo de encontro e também a impossibilidade do mesmo.

Essa história é conduzida por um trio irrepreensível, e dois deles são diretores premiados. Luciano Pedro Jr. (diretor de “O Mapa em Que Estão Meus Pés”) é o tal elo de ligação, que também uma espécie de receptáculo do fantástico; sua presença no filme mescla doçura e força, que se intercalam a todo tempo. Ulisses Arthur (diretor de “Ilhas de Calor”) está em momento de descobertas constantes, e se mostra um potente intérprete, exalando a sensibilidade necessária. Mas o caso mais assustador é mesmo o de Rejane Faria, que desde “Marte Um” sempre nos abre novas camadas como uma das melhores atrizes da nossa atualidade. Aqui, ela tem a força e a fúria em primeiro plano, uma imagem que ainda não tínhamos acessado dela, mas que não deixa apagar sua válvula de delicadeza escondida.

As imagens que “Olhe Para Mim” produz, muitas vezes, são alheias a um quadro de compreensão restrito. O que fica na superfície é o tônus que é aplicado por Rafhael Barbosa em um lugar do cinema brasileiro que não costuma aceitar novos integrantes, que é a experimentação narrativa. Ele reivindica um lugar no sensorial, sem abrir mão do que procura concretude. Mas esse concreto é muito mais democrático, porque permite leituras diversas por espectadores diversos, e isso tudo apostando também em outro tipo de diversidade, aquela que agrupa sentidos e memórias, o onírico se encontrando com o que é material, e descortinando essa ótica dos encontros que vão além da palavra, estão à flor da pele.

5Nota do Crítico51

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