A Noite e os Dias de Miguel Burnier
Corações de ferro
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026
O brasileiro é o melhor do cinema brasileiro, ou o cinema brasileiro é melhor por conta do brasileiro? Assistir a algo como “A Noite e dos Dias de Miguel Burnier” é estar em contato direto com a brasilidade, mas não aquela ideia festiva de cor, vibração, comemoração ou representatividade, mas talvez com um caráter mais profundo de observação, e de aceitação de muitas falências nossas. Capitão do projeto, João Dumans sabe exatamente do que está falando; ele é um dos diretores de “Arábia“, roteirista de “A Vizinhança do Tigre” e “Sete Anos em Maio“, além de um poderoso observador do mundo que habita, como visto no roteiro de “As Linhas da Minha Mão“. Seu novo filme é mais um mergulho em uma geografia de complexidade emocional, onde o ‘lado bom de ser brasileiro’ não existe.
É bobo e menor acusar “A Noite e dos Dias de Miguel Burnier” de uma melancolia buscada ou reinterpretar suas opções como uma exploração de flagelo social. Miguel Burnier é um distrito do município de Ouro Preto, interior de Minas Gerais, um lugar onde em 15 anos caiu o número de moradores de 600 para 80 habitantes. A principal causa é o surgimento da mineradora Gerdau às cercanias, que na sede de encontrar riquezas, comprou grande parte da cidade e deslocou seus moradores de lá, com os restantes que ficaram agonizando diante de uma realidade quase criminosa. Não há qualquer oportunidade de crescimento lá hoje, e os que ainda restaram vivem uma realidade surreal e paralela, em um grau de marginalidade que o filme busca compreender.
Em meio ao constante fluxo de sensações que Dumans coordena com a destreza de sempre, que permite às imagens o seu tempo particular, nos aproximamos sem cuidado de Dadá, Zezé, Rita e Setenta, um grupo de amigos (ou algo que o valha) que ainda vivem em Miguel Burnier, em condições que grande parte do público do filme sequer imagine acontecer. É sem dúvida uma sociedade que parte de um coletivismo para não sucumbir ao abandono, estadual e sentimental, mas que não está em algum recorte reconhecível. Não se tratam de miseráveis, ou de pessoas em situação de rua, ou doentes em dependência química ou alcoólica; apenas são um grupo cuja história é contada através do horror que é a ausência.
Que o Estado falte, esse é o esperado pelas engrenagens da máquina. Por isso sobram uns aos outros em cena e que Dumans filma em seu lugar maior de generosidade. Não é apenas filmar os encontros, uma cumplicidade nascida da dor, ou essa aproximação que só quem tem carência de algo sente. À margem das decisões maiores ou mesmo menores, os habitantes de Miguel Burnier parecem surgir de uma realidade paralela onde só lhes cabe o resto, e no meio do que eles nem imaginam. “A Noite e dos Dias de Miguel Burnier”, como todo grande filme, parte de uma premissa muito específica para universalizar seus temas e tornar aquela realidade, a compreensão supersônica.
Entra em cena então a fotografia de Dumans e a montagem de Affonso Uchoa, seu parceiro em tantos filmes já citados no primeiro parágrafo. Eles compreendem a provocação que podem fazer a partir do plano e da decupagem. Por exemplo, a forma com que o filme enquadra os personagens que retornaram a se encontrar, quando uma delas está reafirmando que não voltou para outra coisa que não livrar-se da casa. A dinâmica, quase um contra plongée filmado com certa distância, que apesar de tudo isso, revela a saudade que um sente do outro, sem eles sequer se tocarem. Para além do que eles organizam para o que é coloquial, tem ainda o que é observacional, onde “A Noite e dos Dias de Miguel Burnier”, que lhe confere uma experiência de contraponto: o trabalho exploratório exercidos pelos donos do poder, e a negação do trabalho para os protagonistas, que os transforma nos andarilhos de si mesmos.
A realidade da exploração de cidades fantasmas, e a maneira como Dumans filma seus personagens e suas dores que desfilam na tela, de maneira explícita ou não, são pontos que contrabalanceiam “A Noite e dos Dias de Miguel Burnier”. Se de um lado, o filme não pode perder a voz da realidade acontecendo em cena, a contínua certeza da impunidade e as burocracias das reuniões civis, do outro as lentes e a luz de Dumans criam poesia a partir da ausência. E é nessa ausência, que seu quarteto se aglomera entre si para fazer valer o afeto que ninguém se preocupou em doar a eles. Um registro onde a subjetividade de cada um deixará claro o teor do que se vê, e se esse mesmo registro está ou não em prol daquelas pessoas que perderam tudo, absolutamente tudo – só lhes restou uns aos outros.




