Sete Anos em Maio

Vidas em Ficções

Por Fabricio Duque

Festival do Rio 2019

Grande vencedor da mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2019 (júri composto por Flavia Castro, João Pedro Zappa e Vicente Saldanha), o novo filme de Affonso Uchôa (de “A Vizinhança do Tigre” e co-diretor “Arábia” junto com João Dumans, “Sete Dias de Maio”, corrobora o caminho socialista de seu diretor, que busca fornecer voz aos marginalizados por uma narrativa de amadorismo orgânico e proposital. Esse cinema direto permite e embasa os descontínuos e híbridos posicionamentos narrativos, entre a ficção da reconstituição teatralizada e verbalmente estática. É um filme que conta histórias, independente da máxima popular do “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

“Sete Dias de Maio” é invertido. Cava-se a reação-choque da dor para humanizar o espectador e estimular de seus atores-personagens a lembranças da “raiva que nunca passa”, do “rosto dos caras que não some nunca” e das “histórias parecidas que se confundem umas com as outras”. O que o longa-metragem quer semear é a similaridade dos acontecimentos trágicos, como se os dois depoentes, que representam todos os outros, não pudessem fugir das “encrencas”. Algo igual ao estilo Maktub, de já estar escrito. E assim, eles próprios repetem os erros cometidos, potencializando fragilidades e vulnerabilidades, como por exemplo, retornam ao mundo das drogas.

É um grande “faroeste caboclo”, que desta vez se passa em Contagem, Minas Gerais. O filme também alicerça o discurso e o torna justificado (principalmente na tradução encenada e anti-naturalista – sim, não são atores de verdade). Isso é na verdade uma “faca de dois gumes”. O artifício cênico pode surtir o efeito objetivado de sensibilizar e vitimar seus estudos de caso, mas também consegue despertar questionamentos sobre até que ponto nossa complacência não se torna cumplicidade por aceitarmos seus crimes e suas falhas morais. Talvez esse seja o ponto principal do incômodo. Igualar os desiguais, em sentido contrário a da Constituição Federal. “Policial é igual formiga: se acaba com um, vem cinco mil”, diz-se.

É sobre uma guerrilha urbana de uma terra praticamente sem lei. De vidas conduzidas pelas drogas. De fracos por desistência. Ao ouvir o que falam, nós que não temos sangue de barata, imaginamos as cenas e sentimos a “truculência policial” traduzida em palavras. Pensamos: que ódio é esse? “Para eles (os policiais), todos nós somos iguais”, diz-se. São inimigos de guerra para completar missões. Quase um jogo de videogame. Só pode ter essa explicação. Eles, os excluídos pensam alto. “A utopia da Justiça: se você roubou dez reais, você deveria ter que devolver dez reais; se você matou alguém, você teria que morrer também”, discorre ideias sobre a equidade de um possível sistema. “Como seria sua vingança?”, pergunta-se retoricamente. “O mundo não é injusto só pela polícia não”, faz a linha advogado do diabo.

“Sete Dias de Maio” é um média-metragem com quarenta minutos, que figura entre dois mundos: o do curta e do longa. Mais um desafio a ser conquistado durante sua existência: encontrar espaços a sua exibição. O filme quer ser uma coloquial e ingênua poesia sobre o social. “Estamos cercados de pilhas de gente morta que já tampou o céu, por isso está tudo tão escuro”, populariza-se com filosofia. Seu final constrói por uma brincadeira de criança uma tensa metáfora resumida do que é na verdade esses conflitos. Estão vivos ou mortos? Ou os dois?

Trailer

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