Dia D
Em nossas vidas, faremos contato com extraterrestres
Por João Lanari Bo
O diretor Steven Spielberg tem reiterado a afirmação acima (título desta crítica) nas entrevistas de divulgação de seu último filme, “Dia D”. Acredite, se quiser: o famoso mote de Jack Palance, em seu saudoso show na TV, atualiza-se inesperadamente. No mundo pós-internet em que vivemos, que entre outros relativizou o próprio conceito de verdade, instituindo a pós-verdade, acreditar em algo se tornou uma mercadoria difícil de vender – a humanidade parece caminhar para um estado de ceticismo absoluto, diriam os pessimistas.
Mas, o que é pós-verdade? Pós-verdade é um conceito que descreve uma realidade em que os fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais. Nesse contexto, a adesão a uma ideia ocorre mais pela vontade de acreditar nela do que por sua veracidade comprovada. O insuspeito Dicionário Oxford, foi quem cunhou o termo, em 2016. Por trás desse “eufemismo técnico”, está obviamente a explosão das redes sociais e todos os algoritmos anexos.
O enredo de “Dia D” parte da premissa que governos em todo o planeta escondem há 100 anos provas e tentativas de contato com civilizações de outras galáxias. Daniel Kellner (Josh O’Connor), especialista em segurança digital, descobre arquivos e vídeos confidenciais e decide expô-los ao mundo. Margaret (Emily Blunt), meteorologista, descobre-se falando russo e coreano sem razão aparente e passa por uma experiência inexplicável que a conecta diretamente com a conspiração. Segue-se a perseguição: uma força secreta tenta impedir o vazamento enquanto o planeta entra em colapso institucional ao confrontar a realidade de que a humanidade nunca esteve sozinha.
Não há como evitar a comparação com o clássico “Contatos imediatos do terceiro grau”. Mas, ao avesso: em “Dia D”, a história começa in media res, com o Dr. Daniel Kellner tendo roubado mais de 70 anos de filmagens e dados secretos sobre OVNIs, além de um dispositivo alienígena de algum tipo, e os vilões da corporação maligna Wardex sequestrando e agredindo sua namorada (Eve Hewson, filha de Bono). In medias res (do latim “no meio das coisas”) é uma técnica narrativa que inicia a história diretamente no meio da ação ou do clímax, em vez de seguir a ordem cronológica tradicional.
Na produção de 1977, Spielberg estabelece um senso de realidade mundana, o que lhe permitiu evocar um terror subterrâneo até a conclusão. O building up lento dos anseios e expectativas é um dado consistente: a obsessão metafísica do eletricista (Richard Dreyfuss), os conflitos com sua esposa (Teri Garr), concorrem para instalar uma zona de não-saber na cabeça do personagem e, por tabela, nos corações e mentes do público.
Já Kellner, um hacker que se torna chefe de segurança de dados da Wardex, decide que a humanidade precisa saber de tudo que está sendo tramado. Tudo isso acontece antes na largada do filme – o que deixa O’Connor zerado em relação ao seu personagem. Ele é bom, um tanto azarado, com princípios morais sólidos, mas tomou a decisão mais importante da sua vida antes mesmo do filme começar.
Margaret Fairchild tem um, digamos, arco de personagem: começa o filme como uma mulher de carreira hiperativa e insatisfeita, morando com Jackson (Wyatt Russell), e então, cerca de cinco minutos depois de ser apresentada… começa a enlouquecer, falando vários idiomas e sendo capaz de ler a mente de todos que olha, olho nos olhos. Se Dreyfuss convenceu passando de pai atarefado para um esquisito obsessivo que esculpia purê de batata, Margaret não parece passar por essa descida aos porões do desconhecido. Uma chave, vinda de algum lugar, é virada nela repentinamente.
O pior, entretanto, são os alienígenas. Se antes o corpo do alienígena aparecia como revelação transcendental, em “Dia D” os pobres extraterrestres que caíram na Terra são maltratados pelos militares que os capturaram. Corpos, enfim, que povoam as produções de ficção científica que habitam a TV (e o streaming, por certo), com zero de aura, para dizer o mínimo. Mesmo assim, aparentemente estão levando criancinhas no meio da noite e alterando seus cérebros, mas… acredite, se quiser!
Steven Spielberg é um cineasta idoso, embora ágil e ativo para a sua idade. Quentin Tarantino declarou certa vez que deixaria de fazer filmes após seu décimo longa-metragem, porque acredita que os diretores pioram com a idade. Spielberg é um prolífico produtor e diretor, mas o toque de Midas que exibiu em sua carreira, sobretudo no início, pode estar se esvaindo… a não ser que a Terra seja invadida, para o bem e para o mal, por uma horda interplanetária!




