Contatos Imediatos do Terceiro Grau

A Catarse da Luz

Por João Lanari Bo

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Existem duas possibilidades…ou estamos sozinhos no universo ou não estamos. Ambas são igualmente aterrorizantes (Arthur Clarke)

Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, que Steven Spielberg realizou em 1977, é um clássico: herdeiro de uma longa tradição de filmes sobre alienígenas, inaugurou uma nova dramaturgia relacionada a essas, digamos, alteridades. Se antes – e também depois, na caudalosa produção ligada no espaço exterior, sobretudo a norte-americana – os seres de outras galáxias são obsessivamente tratados como criaturas hostis, com as exceções de praxe, na trama em tela nossos parceiros do universo desejam apenas …se comunicar. Na linha do cinema de afetos (ou carência de afetos) que baliza o tratamento do diretor, “E.T. O Extraterrestre” foi o ápice dessa estratégia.

Antes, marcianos e assemelhados eram a encarnação do mal, representação involuntária ou não de algum perigo exterior, nazista ou comunista – o epítome dessa paranoia coletiva foi a transmissão radiofônica de Orson Welles, em 1938, dramatizando o famoso livro de H.G. Wells, “Guerra dos Mundos”. Por um desses caprichos da comunicação de massa, muitos parecem ter acreditado na dramatic license orsoniana. Pois Spielberg também aposta na credibilidade – mas calçado em premissas que mergulham na construção coletiva da psique contemporânea, atrelada a mitos e devaneios da razão. Tudo isso, bem entendido, sob o manto da metáfora cinematográfica mais material possível – a luz.

Logo nas imagens iniciais “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” diz para que veio, ou seja, demarcar o território dos saberes que informam o assunto. A descoberta de um esquadrão perdido de aviões da Segunda Guerra Mundial no deserto, evento que traduz a incidência de um saber instituído, o aparato tecnomilitar; a criança atraída por uma luz brilhante sobrenatural e seus brinquedos entrando em ação magicamente, que representa o senso comum de identificação imediata da audiência;  um ponto de luz não-identificado numa torre de controle aeroportuária; e o eletricista de Indiana (Richard Dreyfuss) o qual, enviado para investigar falha de energia, depara-se com fachos arrebatadores de luz e fica fascinado com a sublime visão (se alguém seria capaz de experimentar uma transcendência a partir de um fenômeno luminoso, teria de ser o eletricista, portador do saber técnico apropriado).

Na sequência, um grupo de atônitos cidadãos e cidadãs hipnotizados se acomoda na beira da estrada, incluindo: um visionário conclamando os visitantes a stop and be friendly; a mãe (Melinda Dillon) à procura do menino abduzido; e, numa breve aparição em carne e osso, o ufologista J. Allen Hynek, renomado cientista – apesar de que, para muitos, ufologia não é ciência. Hyneck foi quem forneceu a estrutura básica do filme: o contato de primeiro grau do OVNI é apenas visual; no segundo, há evidência física dos aliens; e no terceiro estabelece-se a comunicação. Passa primeiro um ponto de luz a alta velocidade, que seria o capitão da nave, segundo Hynek. Em seguida um pequeno artefato, criação do departamento cenográfico da produção.

O building up lento dos anseios e expectativas é mais um dado consistente de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”: a obsessão metafísica do eletricista, os conflitos com a esposa (Teri Garr), concorrem para instalar uma zona de não-saber na cabeça do personagem e, por tabela, nos corações e mentes do público. Afinal, o que são os UFOs? Que alteridade é essa, aterrorizante, existente ou não existente, como diz Clarke? Precisamente nessa virada é que entra a intuição de Spielberg, ao escalar como representante do saber científico nada menos do que…um cineasta, François Truffaut. Alguém que no mundo extradiegético é encarregado de organizar a matéria etérea da luz: o cinema é a música da luz, dizia um compatriota de Truffaut, Abel Gance.

E foi num jantar com o compositor John Williams, um ano antes da produção começar, que o diretor bateu o martelo sobre as cinco notas musicais (e visuais) que possibilitam a interação – finalmente – entre alienígenas e terráqueos. Com uma pitada autobiográfica: filho de pianista e cientista da computação (vide “Os Fabelmans”), Spielberg, o filho carente de pais divorciados, achou um meio de juntar as pontas e inventar uma linguagem simbólica pura e eficiente para viabilizar essa comunicação inédita.

Eu adoraria dizer, você sabe, eu pretendia isso e percebi que eram minha mãe e meu pai, mas até este momento não tinha juntado isso, disse um Spielberg boquiaberto no programa Inside the Actor’s Studio, em 1994. Se o diretor logrou operar anos depois essa catarse psicanalítica, a nós cabe a sutura catártica fundamental da sétima arte, renovada a cada experiência espectatorial: a catarse da luz.

5 Nota do Crítico 5 1

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