Pequeno London

Primeiros passos 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026

Pequeno London

Quem frequenta o circuito de festivais brasileiros, ao menos já ouviu falar em Victor DiMarco e Márcio Picoli, diretores de obras de forte impacto como “O Que Pode um Corpo?”, parecem acordar para um novo processo narrativo, deslocando-se provisoriamente da primeira pessoa visual. DiMarco, além de autor, também costuma protagonizar seus filmes (e também já deu as caras em obras alheias, como “O Véu” de Gabriel Motta), e é nesse lugar que ele acaba se mostrando corajoso e audacioso, até mais. “Pequeno London”, ao mesmo tempo em que se deixa liberto para voar livre, também é uma obra que toca em temas sensíveis sem medo de pesar o clima; muitas vezes, caso exista um medo, ele só precisa ser enfrentado.

Di Marco e Picoli inauguram no audiovisual brasileiro uma vertente não explorada antes, que é uma ponte para os sujeitos com deficiência serem vistos em sua máxima potencialidade, seja ela estética, romântica, sexual, de qualquer ordem. Eles rodaram documentários, ficções que pareciam experimentar com um olhar documental, filmes abertamente ficcionais, e é saudável que esse borrão seja continuamente trabalhado por eles, trazendo mais ou menos tintas ao quadro final. Em “Pequeno London”, eles explicitam uma relação com o passado de DiMarco, que pode (ou não) experimentar contar dores particulares através de um tipo absolutamente fictício – London, essa criança que precisa vencer dificuldades não apenas motoras, mas em sua relação com o outro.

O corpo em questão é uma figura infantil, que os diretores ainda não tinham acessado anteriormente. Para quem os classifica em um lado ou outro, “Pequeno London” é uma descoberta, e uma particular vitória. Não existiu ainda qualquer micro sinal de comodismo temático nessa filmografia, mas o seu novo filme é um sopro de delicadeza ainda não acessada. Os autores deixam de lado seus tons de luzes e construção narrativa menos demarcados, e apostam em uma zona de flerte com o realismo. Vindo de Di Marco e Picoli, claro que essa crueza é relativa; a imagem de Victor é fascinante o suficiente para conseguir escapar ao plano. Então é com profunda alegria que recebemos a cena do balanço no parque, onde suas assinaturas fazem o contorno de volta para a obra.

Ainda que muita da acidez típica de suas lentes não se coloque aqui, “Pequeno London” não é uma obra também restrita ao universo infanto-juvenil – embora seja um caminho possível, ao diálogo aberto entre as possíveis diferenças. Apenas seus autores dessa vez encaram sua leitura com algo de selvageria branda, onde o acesso a ela se dá pelo fervilhamento da cena descrita acima, somente. O que temos em cena é uma relação dúbia entre seu personagem título e o reflexo a sua frente, que insiste em mostrar uma diferença que ele mesmo não tenta enclausurar-se. Na infância, ainda que o eugenismo comece a violentar corpos e estruturas de pensamento, talvez a obra lhe pegue na última reta antes do horror seguinte: a adolescência.

Nos pega pelo solavanco que diretores tão arriscados, tão verdadeiros em suas imagens de dissidências, que seu cinema seja tão rico em formas e conteúdo, que o primeiro olhar para “Pequeno London” seja de uma espécie de estranhamento do avesso. O estranho, entre eles, é acessar um cinema menos positivamente lotado de opções, com o “zagêro” (com trocadilho com sua obra) mais domado, mas é também um caminho onde a segurança parece um ambiente tão estranho, que seu recorte respira de maneira diferente. Podemos dizer que esse filme, no futuro, funcionaria como uma excelente porta de entrada ao cinema de Di Marco e Picoli, como uma apresentação para um maravilhoso e admirável mundo novíssimo, que engole o cinema nacional sem pedir licença.

Próxima parada: Veneza. O primeiro longa metragem deles, “London”, acaba de ser selecionado para a Semana da Crítica do festival italiano, e conversa com esse mesmo personagem, anos depois. Para nós que já estamos forrados de Di Marco e Picoli, a estreia de seu primeiro longa soa como ainda mais refrescante. O cinema brasileiro nem imaginava que precisava deles até os conhecer, e “Pequeno London” deve ser recebido de braços abertos e pronto para ser sorvido com a boca cheia. O espectador, através do encontro com essas provocações da dupla de cineastas, saberá que existe uma obra impressionante que está à disposição, com cores e uma vivacidade pouco expressa por luz, montagem e trilha sonora tão próprias.

3Nota do Crítico51