Os Anos Novos

Cenas cotidianas de um namoro-casamento

Por Fabricio Duque

Festival de Veneza 2024

Os Anos Novos

A série “Os Anos Novos”, que está em exibição no streaming Mubi, em dez capítulos de 50 minutos, apresenta sua narrativa por elipses temporais, num intervalo de um ano. Cada episódio acontece durante o revéillon das personagens Ana e Óscar, interpretados, respectivamente, de forma irretocável, pela atriz Iria del Rio e pelo ator Francesco Carril, contando suas histórias de amor, desde quando se conheceram, passando por alegrias e turbulências do relacionamento de gente normal, até chegar a um “arranjo racional” de “suposta” sobriedade adulta. Criada por Sara Cano, Paula Fabra e Rodrigo Sorogoyen (este último que esteve com o novo longa-metragem “El Ser Querido” na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2026 – que por sinal traz uma das melhores cenas de um almoço em metalinguagem), a série nos conduz pela estética coloquial do cotidiano, numa contemporânea Nouvelle Vague espanhola, que redesenha, com autoria, obras de John Cassavetes, Ingmar Bergman e Éric Rohmer, especialmente por aprofundar temas universais de relacionamentos sociais, sentimentos desencadeados por rotinas e idiossincrasias emocionais.

“Os Anos Novos” imprime a narrativa de situações, que se descobrem por acasos e/ou por sortes, em tempos livres de espera e/ou de interesse, com conversas estendidas, espirituosas, empáticas, intimistas e de uma naturalidade extremamente genuína, sensível, orgânica e humanizada, sem contudo perder o timing do confronto auto-defensivo, passivo-agressivo e dominante que cada um deles expressa nos argumentos incisivos e até mesmo muito competitivos. Sim, “Os Anos Novos” nos oferece uma análise comportamental, cognitiva e social, do povo espanhol, em especial os madrilenhos, “terra” muito abordada por Pedro Almodóvar, que diferente daqui se apropria de neurótica reações passionais e histéricas.

A narrativa de “Os Anos Novos” tem força própria. Há um fluxo fluído, naturalista e preciso entre emoção, crise e alegria, Pois é, o trio de criadores entendeu que não é preciso pulular artifícios e reviravoltas, tampouco subterfúgios pretensiosos para se ter um texto intelectualmente inteligente. Essa despretensão, e até excesso de confiança, cria na gente uma sensação de universalidade sentimental, numa espera de “perigo” iminente (de que algo dará errado) e que ocasionará um término. Que o momento feliz deste casal pode ser estragado a qualquer instante (por qualquer força imperiosa). Talvez não se sabe, por metalinguagem de uma das características definidoras da personagem de Óscar, um desconfiado nato.

Como disse, cada episódio de “Os Anos Novos” marca período, mas não há um resumo didático dos acontecimentos do que acontece no ano (às vezes não temos respostas). Ao optar pelas elipses temporais, a série ganha a liberdade de escolher os momentos que retratam instantes em que as personagens estão e como se sentem. Podemos dizer que a série é um épico. Ana e Óscar passam por tudo: luto, gravidez, amizade, saudade, orgulho, medo, abandono, desilusão, melancolia, recomeço, internação, pandemia, viagem a Berlim, mudança para a França, a desintegração ao longo de anos, sentimentos de perda e a constante sensação de estarem fora do tom do tempo presente. A série busca focar na estrutura do realismo cru ultra naturalista, dando assim convivência descontraída (um estudo moral instigado às personagens), muito pela química autêntica de seus atores.

Assim, a cada novo capítulo de “Os Anos Novos” nós embarcamos em uma experiência-cobaia, mas sem antes montar o quebra-cabeças, imaginar e projetar o que eles passaram. Se estão juntos ainda, por exemplo. Sim, nós nos apegamos e queremos saber mais. Não, não é nem um pouco fácil construir esse universo épico de dez anos. Talvez “Boyhood – Da Infância à Juventude”, de Richard Linklater, tenha chegado o mais perto dessa alusão fílmica. É, não é só isso que o seriado nos desperta. Há muito mais. Muitas referências de livros e músicas, como por exemplo o cantor espanhol Nacho Vegas, que está entre o folk e o rock, num que de The Smiths mais intimista; e/ou o cantor argentino Gabo Ferro; e/ou o compositor uruguaio Jorge Drexler. Sim, há uma genuína aura intelectual apresentada, que ajuda demais a conectar o tom da narrativa da série.   

Em meio a séries com estética Netflix de ser, pautadas na audiência, assistir a “Os Anos Novos” é um colírio. Ter por exemplo a cena do jantar em família; e a ida ao clube kinky de música eletrônica berlinense Berghain, que ficou famoso por rejeitar a entrada do público, razão baseada unicamente na escolha subjetiva e sem critérios claros de seu host. Para se ter uma ideia, não importa quem você seja, até Elon Musk foi barrado e não entrou na boate mais “difícil do mundo”. E ter também um estudo real entre o tratamento dos franceses e dos “não franceses”. Pois é, tudo aqui constrói a mestria do resultado, que nos imerge na vida dessas pessoas. Ainda que com um “suposto” final feliz (em aberto), “Os Anos Novos” desperta nossos gatilhos e os resolve ao mesmo tempo. Vai por mim! Terapia funcional em quase dez horas de duração (7 horas e 28 minutos para ser mais exato). Economize dez anos de sua vida analisando tudo o que foi abordado nesta série.

5Nota do Crítico51

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