Supergirl
Apesar de Milly...
Por Francisco Carbone
Ano passado, a DC Studios inaugurou uma nova etapa e seu histórico com o cinema. A chegada de James Gunn como cabeça de operações da marca, e diretor do marco inicial, “Superman“, foi um cartão de visitas muito auspicioso ao público; poderíamos esperar o melhor para o futuro. A estreia de “Supergirl” mostra o oposto dessa sensação, quase funcionando como um retrocesso diante do que foi conseguido anteriormente. Ainda que imerso em narrativa de fantasia, o filme de Gunn era um projeto cujas ambições se justificavam para fora do seu universo. Estávamos diante de um filme cujo teor político, uma discussão radical acerca de dominação global, estava colocada na mesa. Não era isso que se exigiria de produções futuras, óbvio, ainda assim a decepção foi além da conta.
“Supergirl” é um passatempo bem realizado e descompromissado, cuja leveza não se configura em problema, talvez esse seja o aspecto positivo da produção. Mas já fazem muitos anos que aquele título que consagrou Gunn estreou; “Guardiões da Galáxia” não é mais novidade, desde então o cinema de adaptação para HQs repetiu essa fórmula. Esse novo blockbuster não foge dessa característica para sua feitura, um acúmulo de lugares comuns que se avolumaram nos últimos 15 anos. Hoje, nada do que vemos em tela é particular, ou soa como refrescante ao espectador, e esse problema o filme carrega por seus 110 minutos afora. Um título que carrega como missão divertir e propagar sua leveza, em determinado ponto não é mais encarado como orgânico. Inofensivo seria a palavra, e seria bom ter parado nela.
Imaginem se a essa altura, é encarado como sinal de transgressão uma propensão ao alcoolismo tão evidente, com uma ideia de liberdade feminina. Ou seja, o que deveria ilustrar uma conquista e avanço para a discussão em torno do feminismo (no papel, creio ter sido esse um dos fatores para tal abordagem), não demora para ser encarado de maneira diametralmente oposta. Cheguei a me pegar pensando no filme que deu o Oscar a Nicolas Cage, “Despedida em Las Vegas”, uma das produções mais melancólicas dos anos 90, onde o protagonista literalmente tomava para si a ideia de entornar a maior quantidade de álcool possível para dentro do próprio corpo, com a finalidade de morrer. O que o filme mostra é uma pessoa nesse grau de desprendimento com a existência, uma figura triste por trás da aparente festa que comemora em looping contínuo. Não é preciso nenhum neurônio a mais para essa constatação.
Ou seja, existe conectado a essa ideia de suavidade cômica rasgada um irresponsável comportamento que não é problematizado a contento por “Supergirl”. Isso em uma produção que pretende comunicação com um público com metade da idade da protagonista, é grave em alguns muitos pontos. Também por isso essa alardeada leveza da produção não consegue ser transmitida da maneira mais assertiva, ficando em um campo de ambiguidade que anula suas posições. E ainda tem a conclusão mais direta, que é o filme não ter absoluta graça em nada do que se propõe. Ou seja, é uma pretensa comédia que não diverte, contém um drama sem qualquer aprofundamento e um campo de aparente novidade para o gênero desprovido de qualquer coisa nova.
Quando o roteiro, com a anuência da direção, começa a incorporar elementos inerentes a “Star Wars“, aliados a uma atmosfera que remete a “Mad Max“, temos a certeza de que muitas mãos mexeram nesse caldeirão – de ingredientes requentados. Tanto o conceito de ‘missões’ em planetas distintos, com a “figuração” representada por personagens extraterrestres de diferentes espécies, até o clima desértico impregnado em blocos inteiros, constroem essa impressão. E aí chegamos a conclusão que Craig Gillespie, outrora um artesão responsável por belas peças como “A Garota Ideal” e “Eu, Tonya“, transformou-se em um burocrata que acata ordens de estúdio, é uma triste realidade. E isso mais uma vez contrasta com a energia que o filme quer imprimir, de festa sem hora pra terminar. Sem sequer ter começado.
Sobra Milly Alcock. A jovem atriz tem a exata noção do que está fazendo, sua atuação corresponde a tudo que se espera de uma personagem com o seu diapasão, caminhando com segurança pelas muitas armadilhas que a realização (ou melhor, a produção) lhe enfileira. Se ela se sai bem, contornando os percalços, Eve Ridley sucumbe a uma personagem não apenas estereotipada como repetitiva, mas a culpa também não é sua; a condução de sua narrativa é uma colcha de clichês. Matthias Schoenaerts, o grande ator de “Ferrugem e Osso“, nem tenta estar em outro lugar que não a esperada tipificação de vilão de quadrinhos. Já David Krumholtz surpreende como o trágico Zor-El, tio de um certo Clark Kent. Aliás, não é curioso que as melhores cenas de “Supergirl” sejam as que David Corenswet está em cena? Anos depois do avanço feminino nos blockbusters, o novo filme da DC vem mostrar pra gente que dá sim para regredir, é só querer.




