Larry e a Busca da Infelicidade
A linha média da infelicidade
Por João Lanari Bo
Qual o sentido de escrever sobre uma série do canal de streaming HBO Max, “Larry e a Busca da Infelicidade”, criada por Larry David e Jeff Schaffer, que se propõe a pinçar “esquetes cômicos explorando diferentes momentos históricos (dos EUA, bem entendido), com quatro esquetes por episódio”? E qual o sentido de produzir uma série com sete episódios, cada um com quatro ou cinco esquetes, recriando distintos eventos da história norte-americana, com design de cenários e figurinos muito bem cuidado, sob o viés do humor de um notório estraga-prazeres como Larry David?
Em 2026 os próceres do Grande Irmão do Norte estão comemorando 250 anos de independência. Não custa lembrar, foi um acontecimento de enorme repercussão no mundo todo, da Revolução Francesa à Conjuração Mineira de Tiradentes. “Larry e a Busca da Infelicidade” foi realizada para celebrar a independência norte-americana, coproduzida pela HBO Max e a High Ground Productions, empresa do casal Michelle e Barack Obama.
Obama é um sujeito sagaz, seria interessante saber como se deixou levar para essa, digamos, ousada iniciativa. Uma dica é o vídeo de um diálogo dos dois, Obama e Larry, em que o ex-Presidente admite:
Tenho uma vasta experiência lidando com todo tipo de crise, nacional e internacional, mas nada se compara a ter que lidar com Larry David
Os episódios tratam de situações variadas no tempo e espaço, situações que foram marcantes para a história dos EUA. A variável disjuntiva, se é que é possível definir dessa forma, é a presença da persona de Larry como elemento desestabilizador, seja como um dos atores centrais do acontecimento, seja como coadjuvante ou mero observador que estraga a festa. Na primeira opção, por exemplo, ele é o senador Joseph McCarthy, o temível caçador de comunistas nos anos de 1950, reclamando da falta de educação nas audiências do Congresso; e o presidente James Buchanan, o único solteiro que habitou a Casa Branca, lembrado pelas vaciladas que levaram à Guerra da Secessão, mas que encarnado por Larry David, transforma-se em um predador sexual canastrão.
E assim por diante, sempre com a narração espirituosa de Samuel L. Jackson. Em algumas cenas, a mágica funciona, outras nem tanto. A crítica recebeu a série com uma certa ambiguidade, salvo pelos admiradores fiéis do comediante, unânimes nos elogios. Larry, afinal, trabalha sua estratégia de humor em cima do que os antropólogos definiriam como “linha média da infelicidade”, uma (forçada) expressão estética e crítica que descreve um estado comum de insatisfação cotidiana, melancolia moderada e rotina cinzenta, mantendo um tom de ironia, humor sutil e esperança discreta. Seus personagens não vivem tragédias absolutas nem alegrias plenas, mas acomodam-se em uma mediania melancólica e realista da existência.
“Segura a onda”, a série anterior de Larry, teve inacreditáveis 12 temporadas na HBO, de 2000 a 2024 – ele foi também um dos criadores do programa de TV aberta de enorme sucesso nos EUA, “Seinfeld”, junto com o comediante Jerry Seinfeld, em 1989. Depois virou ator, estabelecendo um perfil de atuação que exige do espectador uma certa paciência diante da procrastinação de situações esdrúxulas e ridículas, mas que acabam produzindo humor pela própria absurdidade. Em “Larry e a Busca da Infelicidade”, aos 78 anos, encarou um desafio novo e perturbador – entrar no terreno das interpretações históricas, em uma era de (assustadora) polarização política.
Trata-se, evidentemente, da era Trump. O atual mandatário, além de ter implodido praticamente todos os parâmetros do vocabulário político, tem se eximido em testar os limites institucionais da democracia, levando ao paroxismo práticas e hábitos tradicionais. Em um certo sentido, sua proposta é reescrever a história com uma ótica absolutamente pessoal e autoritária. É inevitável, portanto, o confronto diário que tem com o establishment de humor nos EUA, que não perdoa suas excentricidades – Trump é piada pronta, como se diz, para emissões como “The Daily Show” e “Jimmy Kimmel” (esta última ele tentou, sem sucesso, tirar do ar).
“Larry e a Busca da Infelicidade”, enfim, se inscreve nesse caldeirão como paródia da reescritura da história. Uma paródia eminentemente política, com inteligência e oportunismo.
Um dos eventos celebratórios dos 250 anos da independência foi o chamado “Freedom 250”, montagem de uma arena no Jardim Sul da Casa Branca e a realização de sete lutas profissionais da marca MMA. É ou não é piada pronta, diria Larry.




