Mr. Mercedes
A Cena Primária
Por João Lanari Bo
“Mr. Mercedes”, a série da Netflix baseada no autor canônico do terror do cotidiano, Stephen King, parte de uma premissa, digamos freudiana: um serial killer atormentado por um relacionamento incestuoso e codependente com sua mãe. King utiliza essa dinâmica perturbadora para construir o perfil do vilão e transmitir várias mensagens centrais à trama. A relação incestuosa funciona como um retrato de como o “mal” pode ser cultivado dentro de um ambiente doméstico doentio.
Estamos em 2009, um ano após a crise econômica que deixou milhares de desempregados, em uma cidade não especificada e sem nome fixo no Midwest americano, possivelmente Ohio. Uma multidão de desempregados, incluindo uma jovem mãe com seu bebê, espera nas primeiras horas da manhã para candidatar-se a um emprego. uma Mercedes que estava parada na neblina acelera e avança em direção à massa indefesa, causando caos e carnificina com a morte de 16 pessoas. O homem ao volante usava uma máscara, mas conseguiu escapar.
Ossos quebrando, sangue jorrando não evocam a espetacularização de um filme de terror trash – tudo parece real, familiar. Os personagens são identificáveis, a fome da classe trabalhadora é identificável, e a imagem de um jovem solitário e atormentado expressando sua raiva através de um ato de violência em massa é tragicamente familiar. Dois anos depois, Bill Hodges (Brendan Gleeson), o investigador que não conseguiu resolver o crime à época da tragédia, se aposentou, assombrado por seu fracasso, mas vídeos estranhos postados online pelo assassino o atormentam. Nossos assassinatos não foram vingados, brada um deles. Isso o fez voltar ao caso.
“Mr. Mercedes”, como de hábito nos livros de King, traz uma construção rigorosa de personagens, imersos ou não em disfuncionalidades. King mostra que Brady (Harry Treadaway), o assassino, não nasceu apenas um monstro; ele foi moldado e psicologicamente mutilado por uma infância claustrofóbica. Marcada, sobretudo, por presenciar a mãe tendo relações sexuais quando era apenas uma criança. Brady passou a ser usado pela mãe como parceiro, substituto emocional e sexual, misturando afeto materno com manipulação erótica. Um homem descontente e perturbado, preso em um emprego ingrato em TI, e vendendo sorvete num food truck no bairro.
Hodges, divorciado e com uma filha alcoólatra e viciada na rehab, é movido pelo folk rock de Leonard Cohen que ouve no vinil, pelo uísque e uma forte dose de culpa. Impetuoso e irresponsável, mas, no fundo, um sujeito bem intencionado, com uma convicção inabalável de ver a justiça (ou talvez a vingança) feita. Hodges e Brady protagonistas — embora praticamente não dividam cenas — formam um excelente par, funcionando como polos de cargas opostas que mantêm “Mr. Mercedes” em constante turbulência magnética.
O mundo ao redor deles é enriquecido por personagens secundários com espaço suficiente para se desenvolver e evitar cair nos clichês habituais. Entre outros, Jharell Jerome (Jerome Robinson), estudante esperto que ajuda Hodges a desvendar os mistérios tecnológicos do caso; Janey Patterson (Mary-Louise Parker), que contrata Hodges como detetive particular e se envolve amorosamente com ele; o antigo parceiro de Hodges na polícia, Dixon (Scott Lawrence); e a mãe de Brady, Deborah (Kelly Lynch), sexual starving e a beira de um ataque de nervos.
Em termos freudianos, presenciar relações sexuais da mãe é chamado de Cena Primária. As consequências podem ser devastadoras: o evento desestabiliza os desejos inconscientes da criança, gerando sentimentos intensos de ciúme, exclusão e rivalidade. Um caso clínico conhecido é o do psicanalista Wilhelm Reich que, quando tinha entre 11 e 12 anos, presenciou a mãe mantendo relações sexuais com seu tutor. Sentindo-se dividido e enciumado, o jovem Reich acabou contando para seu pai, que passou a agredir e humilhar violentamente a esposa – e a mãe acabou cometendo suicídio, em 1910.
Brady não é um serial killer a que estamos habituados a ver no streaming. Pode até ser um assassino que planeja seus crimes, mas comete erros, sabe o que quer fazer e como fazê-lo, mas nem sempre executa a tarefa corretamente. Planejar e errar são igualmente atos obsessivos. Excita-se e busca um prazer contemplativo, sádico e narcisista. O ápice desse prazer não está apenas no ato violento em si, mas também no controle psicológico e na contemplação do sofrimento alheio.
O “gozo” de Brady vem de saber que ele mudou permanentemente o estado emocional de alguém, forçando a vítima a viver sob o peso do medo que criou.




