Salvação

Não é mera coincidência 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Salvação

Esperamos outro formato, talvez, quando imaginamos uma que tenha entre suas outorgas o Grande Prêmio do Júri de um dos maiores festivais europeus. “Salvação”, o título que encerrou o Olhar de Cinema, e tem estreia nos cinemas prometida para o próximo dia 2 de julho, é um animal diferente, provavelmente raro, mas necessário. Um festival como o de Berlim precisa, vez por outra, encontrar uma saída para conectar-se com o público mais ávido pelo momento. Político até a raiz, o que impressiona é o ritmo empregado na produção, quase um thriller político onde a tensão e a ação efetivamente se encontram. Isso cria uma moldura pop para um filme que não deve ser encerrado nesse lugar, apenas. O fato de sua textura ter um brilho comercial, provavelmente irá provocar alguma celeuma a puristas.

Dito isso, não há qualquer outro “problema” com o filme de Elmin Alper, que carrega dilemas muito contemporâneos para longe das vilas incrustadas nas montanhas da Turquia. Na verdade, o diretor realiza uma espécie de microcosmos do mundo em sua condição polarizada. Nesse pedaço recôndito do planeta, o que está em voga não é o pastoreio das ovelhas, ou a criação das terras, ou o cultivo de plantação, mas o crescente desânimo entre dois povos rivais, cujo desacordo é como o das maioria das guerras; ou seja, além de ser bobo, é absolutamente masculino. Aquele conceito tradicional, onde pessoas poderiam simplesmente sentar para conversar, mas ao invés disso preferem fazer da vida do outro o mesmo inferno que já está introjetado nas próprias.

A alegoria política presente na obra, ao contrário do que estamos acostumados em ver, principalmente dentro do escopo festivaleiro, está explícita e promove uma tal comunicação entre obra e público, quando geralmente cineastas não se colocam nesse lugar. Nesse sentido, esse segundo lugar em Berlim equivale a recentíssima vitória de “Resta Um” no Cine PE: foram conquistas debatidas e questionadas pela imprensa. Isso nos leva à reflexão de que a grande arte exige isolamento de um possível diálogo com quem assiste. “Salvação” é uma obra direta, um thriller cheio de adrenalina, e de olhar direto para sua análise – e isso deveria ser ótimo para o debate, ou ao menos normal.

A polarização está no centro da questão desde o ato 1, e isso é escalonado até não resistir mais alternativas que não a barbárie, exatamente como vemos diariamente, pelas redes sociais ou mesmo pessoalmente, de embates que terminam em algum tipo de cerceamento. “Salvação”, ambientado em povoado tradicionalista, lida com o tema de forma crua – extermínio é extermínio. Mas as coisas não funcionam sem uma proposta estética clara; de forma direta, o filme apresenta suas armas: dois clãs rivais precisam delimitar seu lugar em torno de um vale. Aos poucos, crimes violentos e a disseminação de ‘fake news’, entram em campo para driblar o atual momento da correção política.

Com elenco irrepreensível, “Salvação” é uma obra do nosso tempo, que conversa com o público do mundo inteiro, embora seja passado em uma vila montanhosa em um país muito específico. Alper conseguiu realizar, com um dispositivo até simples apenas com elaboração estética, uma parábola universal sobre o crescimento do ódio de maneira irracional, e transformando em conflito uma discrepância pontual. É o conceito da guerra ao longo dos tempos, onde o “propósito” inicial se perde em meio aos monstros que os homens se tornam. Não é curioso que o protagonista do filme seja atormentado constantemente por sonhos que nem ele, nem o espectador saibam definir com exatidão se são reais ou não?

Aconselhado pelo inconsciente, esse homem toma para si o poder e se vê, dia após dia, em um processo de perda de razão, e até um provável distúrbio agravado por essa falta de noção da realidade. Estar diante de “Salvação” é perceber que o que acontece no conforto do instagram, está disseminado na vida real. Com valores de produção impressionantes, a fotografia aqui evoca esse caráter do mais angustiante pesadelo, no compasso de estar diante de ações estúpidas em sua rota de eventos. Escondido então em um lugar tão remoto quanto a região de vales na Turquia, está um retrato das guerras sociais de hoje, elevadas aqui a enésima potência.

4Nota do Crítico51

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