O Diabo Veste Prada 2
Meninas superpoderosas
Por Francisco Carbone
Não vale mais a pena entrar nas questões relacionadas à nostalgia que movem Hollywood, e cada vez mais. De “Michael” a “Super Mario Bros”, passando por “Barbie“, remakes, continuações e adaptações de livros, tudo é basicamente controlado por uma força maior que gere o interesse coletivo. O que “O Diabo Veste Prada 2” pode fazer para reconfigurar uma lógica de mercado, ele faz; retorcer os códigos compreendidos anteriormente, moldar o discurso apresentado 20 anos atrás para os valores atuais, redobrar suas temáticas afirmativas. Sem perder 1 centímetro do charme original, mas adicionando à mistura tudo o que condicionou nossa sociedade rumo a um presente de evolução, ainda que não suficientemente.
Todos são os mesmos, na frente e atrás das câmeras, porque o time anterior venceu ao longo dos anos, mostrando o carisma inabalável do produto. “O Diabo Veste Prada”, ainda que cheio de possíveis consertos, ainda é um manancial de carisma e conforto no mundo de ‘sessões da tarde’ cada vez mais sem alma. David Frankel não é um grande diretor, mas tem embaixo de sua asa também “Marley & Eu”, outra obra maior do que seus predicados. O que Aline Brosh Mckenna refaz aqui é a grande sacada da nova produção, que retira da pauta uma toxicidade pouco escondida em personagens anteriores (estou falando de você, namorado da Andy do filme anterior) para comunicar-se com o hoje, ainda mais em seu foco para o gênero e expandindo a discussão para a depredação do jornalismo hoje, os novos códigos para relações de poder, a sororidade como uma nova arma e personagens masculinos (héteros) em seus lugares devidos – longe do palco principal.
Se existe um problema em “O Diabo Veste Prada 2” é essa abordagem mais séria ser exatamente o ponto de partida do filme, que se abre para o espectador de forma dramática. Talvez com a ideia de não ser apenas uma produção descartável, onde hoje o “home vídeo” (e as sessões de tv) praticamente foi abolido, o pensamento de que era necessária uma entrada mais marcante passou pela cabeça de alguém que seria um bom ponto. Isso na verdade quebra a leveza esperada para a produção, arremessando o que estamos vendo na direção de algo sério. O jornalista (e o crítico de cinema), ainda que sinta o abalo provocado pela supressão da profissão de maneira gradativa, sentindo-se tocado pelos eventos, ainda preferiria encontrar tal abordagem diluída ao longo da narrativa, como acontece, mas é recebido pelo filme já com a devida problematização.
Todo o terço inicial parece uma corrida de obstáculos para as protagonistas, Andy Sachs e Miranda Priestley. A primeira é demitida quando alcança o ponto máximo da carreira, e vê o setor jornalístico de onde trabalhava ser extinto; a segunda é assolada por escândalos envolvendo a Runway em esquemas de exploração de mão de obra. E o reencontro entre elas se revela uma pedra no sapato de ambas; a entrada em cena da Emily vivida pela homônima Emily Blunt coloca a energia de “O Diabo Veste Prada 2” no lugar devido, e aí toda engrenagem passa a funcionar, com a leveza, os picos de humor sendo crescentes e o tal drama comum às suas personagens principais aparecendo de maneira pontual no todo.
Não há nada de muito inventivo esteticamente aqui, mas em determinadas cenas de “O Diabo Veste Prada 2” um certo dispositivo é acionado pela direção, e o filme ganha um caráter mais urgente. Não há recordação dessa ideia na primeira parte, e essa textura é mais própria do arranjo de velocidade que o audiovisual hoje suporta, então eu entendo que o trepidar da imagem em certos pontos é uma crítica que Frankel está fazendo a essa dinâmica pseudo-atual e algo moderna. Isso é uma saída, como já dito, pontual do discurso fílmico, e não pode ser assimilado de outra forma que não um tique assumido para provocar o espectador. Em um tempo do vício de uma agilidade vazia, o filme não vacila em transformar tal viés em mais um aporte de humor.
Quanto ao elenco, o quarteto protagonista mais uma vez coloca o filme em um patamar superior. Anne Hathaway é a espinha dorsal que se ergue como um ponto de equilíbrio do todo. Stanley Tucci continua sendo o coração mais puro da roda, mas que tenta embrenhar-se entre as cobras disfarçado de uma delas, por pura necessidade. Emily Blunt ganhou a promoção que merecia devido ao starpower que triplicou de suporte, e continua sendo ferina na medida certa, sendo que sua anabolização potencializa toda a dramaturgia interna. E Meryl Streep: o que dizer? Longe dos cinemas desde a espantosa coadjuvante de “Não Olhe pra Cima“, há 5 anos, não é exagerado dizer que estávamos com saudades. E ela mata cada gota dessa falta que sentíamos em mais um momento de brilho efusivo, uma atriz que não cansa de estar em momento elevado, reencontrando uma das mais icônicas personagens de sua carreira; literalmente veríamos mais duas horas completas de Miranda Priestley sob a capa desse jorro de carisma de Streep.
A sensação ao sair de “O Diabo Veste Prada 2” é da mesma refrescância que 20 anos atrás, com a alta voltagem de, talvez se olharmos bem, talvez seja acertado dizer que vários pontos foram apertados aqui. Se antes tínhamos uma narrativa deliciosa embalada por cenas inesquecíveis, agora isso se repete com a ideia de debruçar-se sobre o desaparecimento de uma fatia de mercado que está fadada ao esquecimento, como todo mortal. Cabe justamente ao jornalismo manter viva a ideia da comunicação, da análise e do jogo – no caso, da crítica de cinema – que une duas pontas de uma mesma cadeia. O agradecimento por atentar à qualidade do que amamos e produzimos aqui, enquanto você lê essa crítica, é coletivo.
Ah, e aquele pullover azul cerúleo…




