Quase Inverno

Palavras ao vento 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Quase Inverno

Três irmãs precisam se reencontrar para os últimos momentos da mãe, enferma há bastante tempo. O irmão que cuida da fazenda da família acaba por chamá-las, e elas retornam para os ritos finais, a despedida e uma posterior conversa sobre os rumos possíveis. Esse é o ponto de partida – ou parecia ser – de “Quase Inverno”, novo filme de Rodrigo Grota (de “Passagem Secreta“) na competição do Olhar de Cinema 2026. Partindo de uma inspiração em Tchékhov e seu “As Três Irmãs”, o cineasta adentra um cenário onde a repressão dos anos 70 (quando a produção se passa) é minimamente representada, sem promover um debate propriamente dito, algo que saia do plano da imaginação. Esse não é, no entanto, o único problema do filme.

“Quase Inverno” não tem culpa de estar inserido justamente no contexto desse festival específico, que abre as portas para a experimentação de linguagem e se dispõe a conversar com olhares diversos sobre liberdades estéticas e narrativas. Independente desse cenário, o filme de Grota esbarra em uma sucessão de desafios que ele mesmo encarrilha para si, e não consegue escapar dos seus próprios atos. Porque, entre outras coisas, não estamos diante exatamente de um filme clássico narrativo, mas de um jogo que observa o teatro com admiração, a literatura com reverência, mas esquece os valores do cinema, criando um campo de erros que seriam fáceis de corrigir, mas que precisaria de uma limpeza quase coletiva em todos os quesitos.

Não existe um trabalho conciso para a decupagem da produção, que elenca um grande número de cenas sujas, com excesso de elementos que atrapalham o plano sem angariar ganho, e promovendo prejuízos. São personagens demais em cenas, com excesso de ações injustificadas, que o olhar tenta capturar informações, que não existem. Ou um amontoado de figuras em cena, muitas delas caladas e sem razão específica para estar lá; na verdade, existem até personagens que não fazem falta na narrativa como um todo, e que foram inseridos no contexto para realizar um único ato, em uma única cena, mas ficam floreando o todo. Carecia, como dito, de uma limpeza de propósitos, a começar pelo roteiro e algumas inutilidades.

O trabalho de montagem não ajuda o filme a encontrar ritmo ou cadência de cenas, levando em consideração que grande parte dos planos tem excessos ou ausências. Em mais de uma cena o recorte temporal da trilha não é bem conduzido, e a base sonora é retirada abruptamente; isso cria ranhuras injustificáveis na obra como um todo, porque são muitas pontas soltas de cenas, como se as costuras da produção não fossem aparadas. Lembro da sensação que “Orfeu”, de Cacá Diegues, me provocou à época, e as colocações são as mesmas; um filme que não passou por uma varredura maior no produto final, mas que não se sustenta também no que deveria ter menos valor na edição.

Como por exemplo, a direção de atores, que funciona em registros disparatados. Ondina Clais, por exemplo, vive uma atriz de teatro, entendemos que sua leitura seja exagerada, quase histriônica. Mas ela, assim como todos, possui campos diferentes dentro de suas próprias leituras; com isso, “Quase Inverno” não tem solidez ou linearidade nessa ideia. Simone Iliescu, por sua vez, joga um registro demasiadamente introspectivo, quase sumindo em cena, contracenando com quem quer que seja. Já o trabalho de Luiza Quinteiro é de leitura impossibilitada, levando em consideração que a personagem está quase sempre rodopiando em cena, o que nos leva ao relevo dos personagens, que inexiste. Eles são rubricas de roteiro cujo trabalho não consegue ser encampado pelo grupo escolhido, por mais talentosos que sejam.

O excesso de um tratamento poético de diálogos transforma a sessão de “Quase Inverno” em algo na linha do incompreensível, simplesmente porque as pessoas não parecem sequer dialogar entre si; falam línguas diferentes, e isso, que poderia ser um predicado positivo, soa como falha de comunicação de linguagem narrativa. Em uma cena potencialmente boa, o diálogo entre as irmãs mais velhas na igreja deixa escapar sozinha todos os problemas do filme; um embate que sugeria um confronto, nunca tem a pressão pretendida. Porque a cena é cheia de cortes, porque o plano raramente as enquadra juntas, porque a luz não valoriza os planos… a sensação ao fim dessa cena é de entendimento do coletivo. Porque das cenas mais apetitosas do roteiro, não teve um resultado à altura de suas possibilidades. Temos uma explicação.

1Nota do Crítico51

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