Michael
Não pare até se satisfazer
Por Francisco Carbone
Biografias são o que de mais polido e pasteurizado existem em matéria de produto “respeitado e adulto” em Hollywood. Anualmente, uma parcela significativa do mercado olha para filmes adultos com fome de prêmios; a biografia é o que existe de mais manufaturado, pouco ousado e controlado dentro da indústria. Na maior parte das vezes, filmes de produtor, encaminhados rumo ao sucesso, onde o verniz estético e narrativo é uma fina camada de proteção a favor do entretenimento. Quanto mais recentes em história e vida forem os biografados, maior será a concentração de fãs do mesmo e maior será a intenção nesse público, de maneira quase exclusiva. Nesse cenário, nasce “Michael”, a bola da vez para todos os aspectos que citei acima.
Trata-se da “história” (em biografia, essas aspas sempre serão necessárias) de Michael Jackson, desde seu surgimento em shows periféricos com seus irmãos, o Jackson 5, até 1988, com o surgimento de mais um álbum icônico, no caso “Bad”. No meio disso, sua relação desastrosa com o pai, o controlador Joe Jackson, sua tentativa de carreira solo, sua explosão enquanto artista adulto, seu sucesso de público e crítica, sua consolidação, seus percalços com a fama. Ou seja, trata-se de um compêndio facilmente encontrado em qualquer wikipedia da vida, onde as cenas são elencadas para que o espectador se comova, torça, se penalize, se revolte – mas dificilmente elabore um pensamento crítico acerca do que se vê.
Dirigido por Antoine Fuqua, que já deu um Oscar a Denzel Washington por “Dia de Treinamento”, mesmo ele não é uma das maiores referências de autoralidade no audiovisual; talvez nunca tenha sido. Fuqua é um diretor conhecido pelo cinema de mercado, blockbuster imediato, um artesão dos milhões; filmes como a cinessérie “O Protetor”, o remake de “Sete Homens e um Destino”, e títulos ainda inferiores a esses. Provavelmente o espectador não-fã de um dos maiores nomes da música na História não precisasse de “Michael”, mas com toda certeza a carreira de Fuqua precisa. Cria uma diferenciação em sua filmografia assolada por filmes de ação genéricos, para colocar ele de novo nas conversas de um cenário com tratamento mais sério.
Dito isso, “Michael” é tudo que imaginamos ser. Um compilado das melhores canções pop que o últimos 50 anos produziu, a imagem de um astro de primeira grandeza a acompanhar tais performances, uma produção até requintada que recria imagens clássicas do audiovisual musical de décadas recentes, tais como os clipes de “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, a coreografia de “Thriller” e o foco decidido na hora, a preparação para o clássico “Beat It”, e as ideias de Michael. Ao redor disso, no entanto, não resta muita imaginação, e sobram questões que podem e devem ser problematizadas em análise, e que arranham os valores de entretenimento puro que a produção busca ter, o escapismo e seus revezes.
O maniqueísmo com que Joe Jackson é tratado, a falta de amplificação com que a personalidade do protagonista é descrita, os cortes em personagens e situações, a abreviação de outros tantos para passagens de 5 segundos (como o massacre que ele promoveu no Grammy no ano de “Thriller”). Em 1992, uma minissérie chamada “Os Jacksons” foi lançada, com espaço de discurso de suas ações; sem defender tal obra, esse é o formato que uma biografia tão extensa quanto a de Michael Jackson deveria ter, talvez até pensando em temporadas, no plural. O que vemos é domado pela indústria, tanto no enfoque quanto na dimensão do mergulho, mais raso do que seriam capazes de alcançar.
Para o elenco, chama a atenção as camadas que Colman Domingo consegue incluir em Joe, e a suavidade típica de uma personagem como Katharine que Nia Long apresenta. Mas todos estarão no cinema para ver o trabalho de Jaafar Jackson dando vida a seu tio, na vida real; o rapaz está bem, reproduz com vontade os passos do homem que deve ter regido sua vida. Mas o roteiro de John Logan não abre qualquer espaço ao seu elenco em conseguir um desempenho que saia do que é esperado. KeyLin Durrell Jones, como o segurança do astro, é a figura que consegue nos fornecer empatia, entre todos os envolvidos, lembrando ao espectador como é bom se importar com o que estamos vendo, para longe da ideia de reprodução de imagens.
No fundo, produções como “Michael” independem de qualquer debruçamento crítico porque elas não foram feitas com o intuito da análise. A ideia é que o sucesso e a comoção em torno do personagem sejam tão óbvias, que isso seja o que falta para assegurar um engajamento natural. Mas o que há de natural aqui? É uma pergunta para a qual não temos resposta. Questões polêmicas são dissipadas, visão própria inexiste, posicionamento foi deixado para amanhã: ou seja, a típica biografia assinada por qualquer profissional da indústria.




