Não Olhe para Cima

Obviedades contemporâneas

Por Ciro Araujo

Não Olhe para Cima

A crítica aqui escrita está levemente atrasada, pouco mais de trinta dias. Apesar dessa distância, talvez tenha prestado como um suporte para o decorrer do próprio filme, uma espécie de maturidade para se entender sua posição na cultura mundial. “Não Olhe para Cima”, de Adam McKay é uma tentativa netflixiana de responder à cultura crescente ocidental negacionista. O neologismo criado referente à gigante do streaming é provavelmente fruto de um gênero novo que vem saindo nos últimos anos. Nos últimos anos inclusive se viu a compra de direitos de produção de séries e antologias que caminham bem perto da britânica “Black Mirror”. É uma fórmula, a partir de um olhar pragmático e industrialista, claro, extremamente aproveitador. O quanto se necessita de um filme aproveitar-se de sintomas tão doentes da sociedade para percorrer o caminho de dizer muito sobre ela própria? Inclusive, a coletânea parece fazer parte de uma coletânea de longa-metragens de estúdios que sempre parecem que têm algo a dizer. Seja por ser muito atual, seja por ser a realidade. Pondera-se então a possibilidade que Hollywood tem em encontrar esse achado, uma mina de ouro para construir um portfólio até certamente popular. 

Adam McKay vem repetindo sua principal característica: a acidez política. Já não bastasse seu perfil em “A Grande Aposta” e no mais recente “Vice”, agora decide ser mais incisivo. É fácil falar sobre esse conceito de liberdade que os Estados Unidos debatem hoje em dia com mais fôlego. As quase chegadas de Bernie Sanders duas vezes seguidas à candidatura para a Casa Branca são exemplos explícitos para o questionamento. O que deixa claro então é a facilidade que existe para se conversar acerca do assunto, chega a ser pobre. A profundidade existente aqui que o diretor entrega é não apenas preguiçosa, como também pode ser traduzida à manutenção da própria mentalidade estadounidense. Não é de hoje que nossos vizinhos de cima são conhecidos por ignorarem uma realidade global, onde não correspondem mais que 20% da população mundial. Assim, a visão de uma paródia ácida que enxerga o mundo como possível negacionista é realmente uma verdade dura de aceitar, mas não tão perto da veracidade além da bolha ocidental. O Brasil com sua onda de extrema-direita viu se tornar um próprio pastiche da Terra da Liberdade. É claro, espectadores nacionais irão assistir e se amedrontar diante da realidade. Personagens que se assemelham tanto à Eric Trump (e Carlos Bolsonaro), uma mistura de Trump e Hillary para Bolsonaro. É simples, o brasileiro apenas se vê nessa situação muito porque a política ocidental caminha bem próxima, em um debate repetitivo sobre ser livre. 

Afinal, se diante de sequências tão irônicas, “Não Olhe para Cima” procura se encontrar no medo populacional. “Parece mais real que a realidade”. Claro, ora: é para isso que o filme foi feito, existe propósito, meio e público. Ignora-se (apesar de ser impossível, então eis uma contradição neste texto) a atualidade. O que sobra? Adam procurando encontrar seus tons idiocráticos. Mostrar o óbvio, na verdade, algo que fica tão difuso em um ambiente controlado pela internet e bombardeamento de informações. Engraçado, pois nem assim é possível de se esquecer de seu contexto. O que talvez mais ecoe fortemente seja um ato simples mas muito mais interessante para falar sobre atitudes burocráticas e que detalham um toque sutil. “Porque um general cobrou por salgados de graça?”. A simplicidade do que ocorre juntamente com a própria singeleza aplica uma interessante visão a respeito da estrutura governamental pública. Assim como, querendo ou não, é um mero questionamento diante da possibilidade de todos simplesmente morrerem. Funciona como comédia. 

“Não Olhe para Cima” tem avós e pais cinematográficos que já dão o exemplo de como construir com a comédia temas centrais que peguem no pé de governos e sociedades contemporâneas. Miloš Forman fez em “O Baile dos Bombeiros” uma aguçada visão que se aproxima inclusive sobre a questão dos generais. “South Park” já fez o mais absurdo possível, para exemplificar uma produção à lá norte-americana. Afinal, como se projeta um filme cujas responsabilidades estejam de atuar dentro de um contemporâneo cujo satirismo já se produz por conta própria? Talvez a visão de Adam McKay já esteja fora de toque, um escrachamento totalmente alongado além da própria necessidade de ser. Aqueles que dizem que a obra possui necessidade e atemporalidade talvez estavam apenas ignorando o quanto tudo já se repetia anos antes. O óbvio parece necessitar de um outro óbvio filme para ser dito. Essa frase também foi óbvia. 

2 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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