Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha

Uma máquina do tempo igualmente fabulosa 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha

O último filme da competição do Olhar de Cinema 2026 foi o exemplar mais leve do certame. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” estreou em fevereiro no Festival de Berlim deste ano, e finalmente teve sua primeira exibição pública no Brasil, em uma sessão catártica. O filme é a estreia em longas de Janaína Marques, que mostra que o Nordeste não precisa viver assolado por histórias tristes de perdas, ou cercado por um humor rasteiro e televisivo, e igualmente não precisa buscar refúgio em um cinema de fundo hermético. Ou seja, Marques se junta a Allan Deberton (de “Pacarrete“) para ir além do estereótipo, e nos encantar com uma visão positiva das relações familiares, incluindo aquelas mal paradas.

Muitas horas depois da sessão, o filme ainda reverbera para o espectador e volta a descobrir espaços de inconsciente dentro do que vê. Em resumo narrativo, o roteiro tenta promover um reencontro entre Rosa e Dalva, mãe e filha separadas por 30 anos. Esse reencontro acontece após a saída da cadeia de Dalva, que foi detida após um surto de violência, e por conta disso não viu a filha crescer. O resultado é o desamor entre ambas, que só aos poucos cria novos avanços, uma em relação a outra, e cuja base do road movie tradicional é subvertida constantemente. As armas escolhidas para encampar no roteiro são a livre poesia das imagens e das tratativas entre as personagens, que redescobrem uma relação dada como perdida.

A suavidade escrita em um roteiro a oito mãos não tira do filme a responsabilidade afetiva de construir a subjetividade dessas duas mulheres, e da capacidade de super heroína que é desenhada por Rosa. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” é suportado em seus possíveis delírios pela abertura que, com a força das emoções, acaba sendo subtraída da memória exatamente como quer o grupo de envolvidos no filme. A força do encontro entre essas mulheres, a descoberta de cada novo ponto promovido pela narrativa, é um trabalho coletivo de cuidado raro, na hora de acertar cada novo desígnio da narrativa. E é exatamente porque o plot inicial esquecido, que aos poucos todos pecadilhos do filme acabam esvaecendo na imaginação; o que fica é a delirante criatividade de todos os envolvidos.

Ao contrário de outras obras de fabulação, onde o conhecimento é passado adiante e dividido entre quem conhece e quem deseja conhecer, o argumento de “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” já se desenha em torno de algo novo. Trata-se de um sujeito se auto analisando, olhando para a própria história e construindo um novo sentido. Pela saudável confusão criada entre um adulto que deseja rever a criança que um dia foi, pela criança ainda residente no corpo adulto e que precisa ser curada e um lamento ancestral que precisa ser sanado mesmo após o tempo finito, essa é uma produção que utiliza a fábula das maneiras mais criativas que temos notícia recente.

O que é montado ao redor da cena inicial, é sonho, é desejo, é necessidade real de pacificação entre o presente e o passado. A fotografia de Ivo Lopes Araújo mais uma vez promove milagres, com a luz e os enquadramentos mais acertados para promover esse divertido encontro tardio entre uma mulher e tudo que veio antes ao que ela pretende construir hoje. E gradativamente somos levados de encontro aos elementos mais delirantes possíveis, mas o entendimento constantemente passa por uma base de eventos, e não do desconhecido. É quando a compreensão começa a se descortinar de maneira cada vez mais clara, o que impede que o filme tenha diversos desfechos ainda mais bonitos e poderosos do que acaba por ter.

Na base da construção, temos Verônica Cavalcanti (de “O Barco“) e Luciana Souza (de “Quando eu Me Encontrar“) – essa, uma das mais geniais atrizes da sua geração. O encontro entre essas duas mulheres permite a magia acontecer para além do espaço narrativo, da realização de Marques, da própria natureza do projeto. O jogo que elas estabelecem é de uma cepa rara de se ver, um encontro que já nasce desejando pelos próximos, uma gangorra de equilíbrio perfeito. Está na conta de ambas, além do desenho impecável do roteiro e da direção imaginativa da jovem Marques, o peso que “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, adquire, de acerto de contas entre o que somos hoje e que podemos perdoar, em nós mesmos.

4Nota do Crítico51

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