Notas Sobre Um Desterro
As questões do extermínio
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a CineOP 2026
A emoção tomar conta de uma narrativa contada para o cinema é fácil, pois trata-se de um terreno de subjetividades onde o caráter emocional sempre pode aparecer em diferentes situações. Mais difícil é um cineasta brasileiro ter acesso a uma realidade estrangeira a ponto de se envolver em uma crise humanitária, com a empatia mais que necessária pela dor do outro. “Notas Sobre Um Desterro” é uma produção que não busca a facilidade desse olhar, e sim uma ideia de envolvimento com tais elementos através de um viés jornalístico, essa seria a porta de entrada. Mas não demora nada para que estejamos envolvidos na ocupação da Cisjordânia e a resistência palestina diante do horror do genocídio.
O diretor Gustavo Castro começou a desenvolver o projeto em 2018, como uma tentativa de comunicar-se com a Palestina propriamente dita, e a sua situação ininterrupta de diáspora. Através da ligação com uma família palestino-brasileira, “Notas Sobre Um Desterro” revela uma fatia social que sai dos noticiários para adquirir sua própria voz diante do terror cotidiano. Seguimos ao lado do diretor na tentativa de compreender tais movimentos migratórios motivados pela perda absoluta, mas ainda mais importante é mapear o campo emocional dos elementos que escolheram ficar e enfrentar.
Os encontros, da câmera com os personagens, com os cenários que o filme revela, e com essas ranhuras entre o que é sonho e o que é possível durante uma guerra, é um dos trabalhos essenciais de Castro enquanto realizador. Ele tenta ler os caminhos da guerra, mas fazendo as escolhas certas: em qualquer que seja o evento de ação, são as pessoas que conduzem a história que fará o espectador se conectar com o que vê, e com o que quererá ver. “Notas Sobre Um Desterro” avança na discussão pacifista sem precisar apelar como o diretor de “20 Dias em Mariupol“; não são as imagens do trágico que precisa conduzir uma história, e sim o que cada figura em cena elabora sobre sua dor, sobre o presente, sobre uma nesga de futuro.
Os relatos são pungentes como devem ser, sem explorar a miséria humana como cineastas espalhafatosos costumam fazer. Também não é uma oportunidade para Castro se auto promover através da tragédia de um povo e de uma região; esse é um filme onde o máximo de discrição é colocada para que o ambiente não pese além dos fatos independentes. “Notas Sobre Um Desterro” se atém ao que já está à flor da pele, temática e universalmente; as tintas colocadas pela montagem dão conta de um material que vai direto ao ponto na hora de expandir suas colocações. Temos a condução elegante, temos o caráter investigativo, e a maneira no limite da sobriedade com que suas cores são pintadas.
Essa também é a preocupação da fotografia, que une essas imagens do hoje à historicidade do arquivo, dão conta de retirar toda e qualquer espetacularização do que vemos. Tudo é muito cru nas tentativas de Castro se aproximar de algum horror, seja no literal das explosões e da ação propriamente dita, ou nos encontros próximos, seja com sobreviventes ou estudiosos do tema, que mostram unidade em tudo que vemos. É um trabalho de coragem porque a tentação de servir ao contexto do show é forte, e o trabalho prévio de seu diretor com o material de arquivo e com o documentário vai retirando do espectador as impressões erradas que poderiam aparecer inicialmente ao que vai sendo revelado – a única vontade de contribuir para o debate, e denunciar o horror da realidade.
E é nesse contexto que “Notas Sobre Um Desterro” ainda encontra personagens para que, didaticamente, tais implicações sejam explicitadas, sejam por uma descrição historiográfica ou por um envolvimento emocional ou pessoal com tais regulagens. Isso também é um dos pontos onde, cinematograficamente, o filme se mostre menos ágil no que tenta conversar, perdendo seu valor narrativo que era ganho até ali. Ainda assim, temos um bom pedaço de cinema aqui, que não se curva às lógica vigentes do que os diretores pelo mundo vem fazendo, para mostrar o sensível olhar sem retoques do melhor cinema brasileiro.




