Fjord

Palavra e imagem 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival de Cannes 2026

Fjord

Cristian Mungiu ganhou sua primeira Palma de Ouro há 19 anos atrás, e ela não é qualquer premiação. “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” é considerada por muitos como a melhor e mais importante Palma do novo milênio, e sua repercussão mudou o estado das coisas inclusive dentro da indústria estadunidense, que teve de mudar regras do Oscar para acoplar filmes que a crítica mundial estivesse debruçada, com ou sem radicalidade estética. Era seu segundo longa metragem. Quatro longas depois, Mungiu voltou a vencer o prêmio máximo do Festival de Cannes 2026 com “Fjord”, e tudo mudou. Não há mais qualquer coisa que se assemelhe a unanimidade, e o novo filme do cineasta romeno parece trair o tanto de que seu cinema apresentou até então. Cinema de discurso também precisa entregar… cinema.

Existe um debate forte acontecendo em “Fjord’, provavelmente muito pertinente, atual e importante. Todas essas alcunhas que não necessariamente deveriam acompanhar uma produção, ou fazer delas seu prontuário tradicional. Vindo de um cinema político não apenas no que quer dizer, mas na forma como diz, a Primavera Romena revelou um cinema urgente em sua tensão social, que comunicava sobre o estado das coisas na Romênia, sem deixar de elencar seus rastros ao redor de qualquer sociedade que se imagina pensante. Reencontrar Mungiu menos preocupado com a forma, e quase exclusivamente visando um conteúdo de valor explosivo por si só, é contentar-se com pouco.

O filme acompanha um casal formado por um romeno e uma norueguesa, que se mudam para Noruega com oportunidades de trabalho ascendentes. Sua prole conta com 5 integrantes, todos nascidos em solo romeno. Quando menos esperam, são assolados por notícias inesperadas, por estarem desconfiando de seu tratamento para com os filhos; leia-se maus tratos explícitos, e na Noruega esse é um assunto sério, que provoca prisão e perda de pátrio poder quase imediato. Esse é o terreno fértil onde Mungiu se avizinha, mas o que poderia ser mais uma parábola social com códigos estéticos que se assimilariam aos éticos, perde seu olhar de autor para dar voz ao clamor de uma discussão que é travada dentro e fora do filme.

“Fjord’, é uma oportunidade de investigar muitas questões prementes, até umas que nem se imaginava, como sexualidade na adolescência, ou o avanço de religiões castradoras e o preconceito que nasce para com elas, mas nenhum desses olhares é provido de equilíbrio. Ou talvez falte a Mungiu a coragem de assumir um lado do debate, seja ele qual fosse. Assim sendo, não temos bem nem uma provocação escandalosa que se arvore por lugares espinhosos, nem leitura imageticamente ousada para explorar os registros de vozes. A explanação do qual o espectador é motivado a participar após a sessão acaba parecendo mais rica e instigante do que está na tela, tendo em vista que trata-se de um filme que escolhe não escolher.

Ainda que a frieza perpasse toda a construção, isso não é um problema maior. Estamos falando de eventos que ocorrem na Noruega, país que não é exatamente conhecido pela carga explícita de sua entrega emocional. Uma das atrizes em cena inclusive, Lisa Carlehed, consegue furar a barreira instintiva, e é a interpretação mais humana e comprometida do projeto. Ao mesmo tempo, não há como culpar o elenco por falta de envolvimento, quando Mungiu escolhe colocar seu protagonista Sebastian Stan (indicado ao Oscar por “O Aprendiz“) de costas para a câmera. Na ânsia de não comprometer sua obra com a essência do melodrama, o diretor acaba por despir “Fjord’, de uma conexão emocional que seria viável para um filme que só se complementa com a participação popular.

“Fjord” não é desprovido de interesse ou curiosidade, e consegue suscitar mesmo as tais discussões que são abertas por seus personagens, para a intolerância religiosa, criação de novos indivíduos e uma ideia liberal que não atinge todas as camadas de assuntos. O que desbota esse novo filme de um criador tão acurado é esse freio na realização para que o discurso tenha palco principal, e a autoralidade deveria passar por esse lugar como um plus, e não ancorado aí. Mas o resultado foi positivo, já que uma nova Palma de Ouro foi conseguida tão facilmente assim.

2Nota do Crítico51

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