Crítica: Contos da Era Dourada

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Ficha Técnica

Direção: Hannö Hofer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu, Ioana Uricaru
Roteiro: Cristian Mungiu
Atores: Diana Cavallioti, Radu Iacoban, Vlad Ivanov, Tania Popa, Liliana Mocanu
Fotografia: Liviu Marghidan, Oleg Mutu E Alexandru Sterian
Música: Hanno Höfer E Laco Jimi
Figurino: Brandusa Ioan, Ana Ioneci, Dana Istrate E Luminita Mihai
Edição: Dana Bunescu, Theodora Penciu E Ioana Uricaru
Produção: Oleg Mutu E Cristian Mungiu
Estúdio: Mobra Films / Why Not Productions
Distribuidora: Imovision (brasil)
Site Oficial: Http://www.talesfromthegoldenage.co.uk
Duração: 155 minutos
País: Romênia
Ano: 2009
COTAÇÃO: ENTRE O BOM E O MUITO BOM

A opinião

“Contos da Era Dourada” é um conjunto de seis curta-metragens dirigidos por cinco diretores romenos do novo cinema atual. Aborda o governo ditatorial de Nicolae Ceausescu, focando a década de oitenta. Neste período, o regime tornou-se ainda mais fechado, o que reforçou seu isolamento internacional. Este continuaria se acentuando com as reformas políticas de Gorbatchev na União Soviética. Enquanto isso, a corrupção, o nepotismo, a ostentação e o culto à personalidade tomavam definitivamente conta do governo Ceausescu. A polícia política – A Securitate – controlava violentamente a ordem social. A censura à imprensa, as perseguições políticas e a repressão às minorias étnicas eram a regra no país. Os indivíduos romenos para sobreviver durante este período burlavam regras com o “jeitinho” que os brasileiros conhecem bem. É impossível não referenciar ao nosso estilo de vida.

O longa direciona o espectador a uma narrativa de comédia de situações. As histórias apresentam-se como cordéis nordestinos, principalmente por seus títulos, que buscam a naturalidade ingênua, quase rural, de vidas que precisam seguir seus caminhos. São folhetins com técnica cinematográfica. A camera retrata planos realistas de ações sem a necessidade da correria, mas deixando ágeis os cortes. A trama envolve acontecimentos a cerca do partido comunista, contados sob a ótica de lendas sociais – repetições massificadas que não se sabe se é verdadeiro ou não, mas participa do universo coletivo do local.

Comportam-se quase como fábulas maniqueístas do mundo concreto, tendo o politicamente correto do final como critica paradoxal a uma época “dourada”. Não há pudores. A tensão, um suspense de que algo irá acontecer a qualquer momento conduz os curtas. As interpretações não são teatralizadas. Deseja-se a naturalidade realista, portanto a encenação é mitigada. O mote é o costume e como os personagens se apresentam perante o que acontece.

Em cinco episódios, mais um extra, são recriados alguns dos mitos urbanos mais populares da Romênia durante os últimos 15 anos do regime ditatorial de Ceausescu. Muitas vezes cômicas e surpreendentes, tais histórias eram uma forma bem-humorada de lidar com tempos difíceis, que ironicamente a propaganda oficial batizou de Época de Ouro. Repleto de regras absurdas, como a de que o presidente era proibido de tirar o chapéu na presença de representantes de nações ocidentais, o partido comunista tornou a vida no país, em muitos aspectos, um grande palco surrealista. Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2009.

“A Lenda dos vendedores de ar” aborda vendedores de garrafas, uma das formas de se conseguir dinheiro, por tramas simplistas. O personagem arquiteta planos quase infantis e junto a uma estudante de vida comum, eles unem-se com a referência ao filme “Bonnie & Clyde”. Ela vive o novo, o “ilícito” e a figura rebelde dele. Isso a estimula. “Pra ser eficiente, só roubando um banco”, diz-se. Para que se possa terminar, há correria apelativa, deixando amador a resolução da história.

“A Lenda do chofer das galinhas” é sobre pessoas que transportam mercadorias, neste caso aves. Trabalha-se a relação entre o certo ou errado de se apropriar de ovos – e as consequências dos atos praticados. As ações banais e cotidianas, como limpar tapetes, sentar na cama de camiseta – com o ruído característico – e ou pagando moela com açúcar, ambientam a simplicidade da normalidade. A camera quer vivenciar o que está a mostrar, imprimindo um proposital amadorismo quando deixa acontecer a cena em que se lava um cabelo em uma bacia em um banheiro com marcas do tempo. “Conseguir uma mercadoria é difícil, principalmente para uma mulher”, diz-se.

“A Lenda da comitiva oficial” aborda um vilarejo que segue, sem pestanejar, as regras e superioridades do partido governamental. O lugar é o último caminho percorrido pela comitiva. Então, há preparações para que tudo seja perfeito. Em um parque perdido, com o brinquedo “Chapéu mexicano”, eles tentam desesperadamente cumprir as exigências dos “superiores”. Aceitam, com ingenuidade, totalmente, sem questionar, as ideias surreais e incompreensíveis. Crítica ao nacionalismo exacerbado.

“A Lenda do fotografo oficial” é sobre um instante na vida profissional de um fotografo e seu assistente. Eles com os participantes “inferiores” do partido manipulam a imagem para agradar ao ditador. Nada pode sair errado. Mas se enrolam no próprio rumo que estão dando. “Vamos retocar a foto”, “Pode deixar mais alto?”, diz-se. A imagem política é deturpada para a exposição nacionalista. “Erro de protocolo”, finaliza-se entre risadas de uma catarse libertadora.

“A Lenda do ativista zeloso” inicia-se com um discurso politico do partido, utópico, de erradicar o analfabetismo. Essas ideias colocam seus seguidores e funcionários em enrascadas. “Que fim de mundo!”, diz o professor encarregado a resolver o problema. O idealismo crônico até que tenta construir resultados positivos, mas é brecado por costumes típicos e crenças sociais do lugar que se deseja “modificar”. “Protege-se do perigo quando se aprende a ler”, diz-se. A visão muda. A pureza transforma-se em razão concreta.

“A Lenda do policial ganancioso” é sobre o medo do desejo de se cometer um pequeno deslize. Para isso, esconde-se do outro, partindo para uma solução extremamente ingênua, após embasar-se no argumento educacional. O hino escolar cria o conflito com a frase “Guarde a banana, não vê que está deixando os outros com fome?”. Trama simples tendo um porco como mote principal, prendendo o espectador na cadeira de cinema ao usar a graça crítica.

Vale a pena ser visto. É a visão de novos cineastas romenos da ditadura que eles viveram. Utilizam a ingenuidade para criticar e descrever percepções.

Os Diretores

Ioana (1971) roteirizou alguns longas e dirigiu um curta, uma video-performance e um documentário. Hanno (1967) formou-se na Universidade de Cinema e Teatro em Bucareste. Dirigiu programas de TV, comerciais,videoclipes e curtas. Razvan (1976) também é formado pela Universidade de Cinema e Teatro. Dirigiu e editou alguns curtas. Constantin (1973) tem formação em letras. Dirigiu um programa de TV e quatro curtas. Cristian (1968) também estudou na Universidade de Cinema e Teatro. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes por 4 Meses, 3 Semanas e 2 dias (2007). Todos são romenos e, à exceção de Mungiu, estréiam na realização de longas-metragens.

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1 Comentário

  • Com altos e baixos, mas interessante. Chega de blockbusters vazios e medíocres, não é mesmo? Vamos nos aventurar e desbravar as mais longínquas fronteiras cinematográficas.

    Resposta

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