Disciplina
Aula de arte
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026
Após a estreia de “A Noite e os Dias de Miguel Burnier” estrear no Olhar de Cinema 2026, um filme novo de mais um diretor de “Arábia” (um dos melhores filmes brasileiros da década passada) também aporta por aqui. “Disciplina” segue a sanha de Affonso Uchôa em torno do média metragem, que rendeu anteriormente “Sete Anos em Maio” e aqui volta a mostrar sua investigação em torno da formação da sociedade brasileira em momento de transição, conforme ele já se interessa desde “A Vizinhança do Tigre“. Como o título sugere, estamos em ambiente educacional pela primeira vez com Uchôa, e isso faz com que ele preste homenagem aos mestres do país na cartela final, mostrando coerência com as narrativas que ele vem descortinando.
Todas as suas obras tratam de um sujeito em constituição inicial, de pensamento cívico, em anos ainda juvenis, onde um projeto de cidadão começa a ganhar forma, e nem sempre se desenha da maneira urdida pelos desígnios da pátria. No entanto, é a primeira vez que seu roteiro nasce efetivamente dentro do ambiente de ensino, dando voz a três grupos distintos no universo escolar: o professor, o aluno e a terceira via dentro do ambiente, no caso uma espécie de inspetor/zelador. Óbvio que seu interesse maior é em quem tem, efetivamente, a chance de mudar de vida a partir do ensino, com desdobramentos surpreendentes – e muito compreensíveis dentro de uma obra de Uchôa.
Nicolas é o que poderíamos chamar de “aluno-problema”, e mais uma vez precisa ser direcionado para uma conversa com o diretor por sua professora. A partir desse gatilho, o autor revela que seu interesse é tirar do palco as performances sociais esperadas no ambiente escolar, e transformar seus quatro personagens centrais – entra também em cena a mãe de outro aluno, desaparecido há 4 dias – em peças arquetípicas de um, digamos, jogo de cena. A apresentação inicial dos créditos na voz dos atores é daquelas coisas muito simples que nos fazem encantar por tais movimentos sutis de emprego se possibilidades; são atores montando uma cena, onde a cadência documental pode suscitar imperfeições no processo contínuo, mas cuja apresentação nos arranca do real para o jogo cênico.
É no encontro do quarteto que o surgimento desta quarta figura externa à atividade, que Uchôa começa a explicitar seu leque de opções estético-narrativas. A mãe de Gustavo procura o filho, que não vai à escola já faz duas semanas, e importa tanto a “Disciplina” o que é roteiro/humanidade, quanto o que é direção/obra. As rupturas começam a se tornar francamente evidentes, quando a senhora passa a ecoar seu texto e isso cria a fricção necessária para a surdez perante às vítimas do Estado, mas também ao processo de teatralização do objeto filmado. As marcações dessa cena em específico mostram o quão fascinante pode ser um arranjo simples, ao forrar de artificialismo o que é originalmente natural.
Depois de trafegar de maneira propositadamente errante entre o documentário e a ficção, Uchôa recruta dois excelentes e reconhecidos atores (Kelly Crifer e Renan Rovida) para borrar sua obra exatamente como deve ser, mas dessa vez do lugar oposto. Enquanto sua filmografia geralmente parte de um aspecto de ‘cinema verité’ em essência, “Disciplina” é uma obra de ficção que se vê rasgada pelo artifício de uma maneira tão marcante, que o aceno ao documental acaba se mostrando a única saída. É a partir daí que entra no picadeiro os enxertos externos que ecoam no plano – os copos que se quebram continuamente, o coro grego que assiste aos eventos como se fora uma plateia no templo, os próprios corpos de Crifer e Rovida que parecem mecanizados para compor um ‘tableau vivant’, em movimento para formar a cada nova camada, um novo entendimento das consequências dos atos.
O terceiro ato abre espaço para Uchôa chegar ao seu habitat natural, uma ideia de drama noturno onde a tradicional fogueira do autor mais uma vez é montada, mas dessa vez as labaredas saem das bocas de um grupo de jovens que expelem seus desejos. É um dos momentos que ficarão na memória do 15o Olhar de Cinema: cadeiras empilhadas no exterior da escola, e seu corpo discente a declamar, de maneira livre, o que os faz tão verdadeiros. Uma imagem tão verdadeiramente forte que a verbalização talvez até soe desnecessária, mas que sua existência ali é uma demonstração de domínio de plano e decupagem de seu diretor, que monta um quebra-cabeças humano em cena.
Os trabalhos de Crifer e Rovida em cena também montam um aspecto tradicional a uma obra que vai perdendo, a cada nova camada, sua tendência à liberdade que Uchôa preza. Não é exatamente uma liberdade que tire da obra uma porção de arrojo; se engana quem pensa que essa é uma obra proveniente do improviso, o que geralmente é bem-vindo pelo cineasta. Aqui essa ideia não se firma, mas ao mesmo tempo é em nome dessa aparência que o diretor de “Mulher à Tarde” ainda faz sua dramaturgia crescer, porque dessa vez a palavra original inglesa, ‘play’, está muito bem representada entre o jogar, o interpretar e o fingir mesmo. E com isso seu título, “Disciplina”, também é uma forma de formar uma elegia a algo tão característico dos grandes profissionais da arte.




