Adulto/Homem
Jogo de risco
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026
Pedro Diógenes continua nos testando em lugares comuns próprios do espectador, e aqui realiza uma obra mais sui generis que “Inferninho“, “Pajeú“, “Centro Ilusão“, ou os filmes com seus colegas da Alumbramento. “Adulto/Homem” é, acima de tudo, um estudo de coragem do realizador, que amplia sua imagem para fora do cinema que se convenciona chamar narrativo. A verdade é que as possibilidades abertas por esse olhar dentro da seara documental, e do que são as curvas que separam os gêneros dentro filme, dão ao seu filme um caráter único. Estabelece assim uma nova porta aberta para a significação do que é constantemente feito por ele, e aqui ganha uma ideia de sofisticação e de compartimento ainda mais profundo.
O dispositivo só parecia simples: um grupo de 19 atores, do Ceará, são chamados para um teste de elenco, e vamos acompanhá-los durante a única hora que precisam esperar pelo teste – que irá acontecer? Ou não? Essa é a porta de entrada para um experimento de linguagem onde Diógenes já clarifica suas inspirações ao fim da projeção (James Benning de um lado, Bruno Safadi e Ricardo Pretti de outro em seu “Para Lota“), mas cuja proposta é bem mais abrangente. Afinal, quando o autor faz a provocação, resta ao espectador aceitá-la, acatá-la, ou partir para um plus de entendimentos, na tentativa de conversar com o mesmo. A partir desse encontro, e de um plano-sequência que é o próprio filme, o que está sendo dito pelo autor a respeito de um processo empático entre seus personagens, é o objeto a que se filma e que se estuda.
Acima de tudo, estamos claramente diante de uma elegia ao trabalho do ator que exige atenção de quem não o é. Essa cena ininterrupta e sem cortes, onde nosso olhar aborda os 17 rostos e suas reações, sensações e possíveis intranquilidades em um momento de tensão, é incômoda para não-iniciados em cinema de fluxo. Mas o que ela revela a cada novo close, a cada nova expressão, e novo encontro é um jogo que caminha além de uma classificação tradicional – documentário ou ficção. Não à toa, as melhores experimentações de linguagem acerca dessa categorização tem vindo do cinema brasileiro menos conformado. Diante de uma obra como “Adulto/Homem”, as perguntas mais óbvias se fazem menos assertivas e o campo de observação precisa ser revisto na totalidade de suas camadas.
O mais proveitoso dessa experiência é a certeza de que não estamos diante de uma obra única; em “Adulto/Homem”, cabem diversas leituras, onde o tempo para a maturação acabará provocando novas digressões. O convite de Diógenes passa por uma leitura acerca de precarização e de algum excesso de glamour que precisa ser desmistificado em relação à profissão de ator – nesse sentido, a proposta do filme alcança seu objetivo. Estamos diante desse processo através do elemento mais vulnerável, a mão de obra de conexão direta ao espectador. Mas a pergunta que não é respondida fala sobre nossa relação com tais figuras, que são vendidas dentro de um jogo estético de ideia exuberante, mas deslocando-se da relação do público final com o que se vê.
Quando a influência de Eduardo Coutinho torna-se ainda mais evidente, que também manifestou sua admiração pela arte da interpretação em “Jogo de Cena”, “Adulto/Homem” deixa um vácuo de identificação na ordem. Enquanto Coutinho nos levava para uma ilusão de realidade, Diógenes deixa claro que existe uma fabulação em cima do sujeito. As histórias são reais, mas há interpretação da parte de todos eles; isso tira um lastro de magia do contexto, já que o filme nem conecta vozes e personagens. Tem uma fatia de fascínio na brincadeira, mas a dúvida que o diretor de “Edifício Master” nos provocava era parte integrante do processo imaginativo; aqui, o filme passeia sem conseguir nos envolver no que é dito e por quem é dito, porque a dissociação entre imagem e som é procurada pela obra.
Diante de tanto hibridismo, “Adulto/Homem” nos intriga pelas sombras que promove mas também confunde com a certa frieza que o material promove. Porque é tudo Cinema, e nesse caso a mecânica da coisa joga contra o resultado, tirando algo do humano da equação. Ao não criar essa ponte que conectaria o que é filmado a quem assiste, o filme acaba por assumir que a admiração pela obra não precisa de eco. O excesso de consciência tira da produção o que é mais orgânico de sua matéria-prima: o envolvimento com o outro e o que nasce dessa observação.




