Experimentação relevante

Por Pedro Guedes

Não é fácil escrever sobre “Inferninho”, novo longa de Guto Parente (“O Rio Nos Pertence” e “A Misteriosa Morte de Pérola”) e Pedro Diógones (“O Último Trago”). Estabelecendo-se como uma experimentação formal e como um retrato social inquestionável, esta é uma daquelas obras que realmente provocam uma reação no espectador, jamais permitindo que este saia do cinema sentindo-se indiferente. Trata-se, portanto, de uma experiência forte – e se o público não ficar impactado pelos temas e pelos arcos dramáticos que são apresentados, certamente ficará pela mise-en-scène disforme. E para que não haja dúvidas: estou elogiando o filme.

Roteirizado por Parente, Diógones e Rafael Martins, “Inferninho” é o título do longa, mas também é o nome do barzinho de beira de estrada no qual a narrativa inteira se passa. Lidando com personagens socialmente desvalorizados e que encaram o dia a dia não como um ofício, mas como uma maneira de continuar de pé, a trama traz como protagonista Deusimar, uma mulher trans que trabalha como dona do Inferninho, mas que vive sonhando em ir embora. Tudo muda, no entanto, quando um representante do governo aparece no bar e expressa o desejo de comprar aquele território, derrubando o estabelecimento e transformando aquele terreno em… bem, algo que interesse às vontades econômicas dos compradores.

A partir daí, começamos a entrar em questões temáticas que estão presentes no filme e que são fundamentais num Brasil desigual como este em que vivemos: se “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, chegou a receber uma ou outra crítica que o acusava de ser um “white people problem“, “Inferninho” gira em torno de personagens que foram escorraçados pela sociedade em função de suas naturezas econômicas, sendo enxergados como “nojentos” ou “pobretões” (seja lá o que isto significa, aos olhos de quem pratica este tipo de discriminação). Assim, as pessoas que trabalham no Inferninho e que vivem fazendo apresentações no palco enxergam o bar como um verdadeiro acolhimento – numa ideia que é defendida pelo marinheiro Jarbas, que acaba de chegar ao estabelecimento e logo começa a trabalhar como barman.

E o mais curioso é o jogo de palavras que o filme estabelece da palavra “fantasia” com o verbo “fantasiar”: embora os apresentadores vistam roupas baratas, porém extravagantes (um deles se veste de coelho, por exemplo), a única personagem que parece fantasiar uma situação com mais intensidade é Deusimar, que sonha em ir embora – provavelmente para um lugar mais valorizado pela mesma elite que a deixou para escanteio. A performance de Yuri Yamamoto, diga-se de passagem, é hábil ao estabelecer a insatisfação e a amargura da protagonista, que não consegue entender que a tragédia socioeconômica na qual está inserida não será quebrada de uma hora para a outra, negando seus colegas de trabalho/moradia/condição. O que torna o desfecho do arco de Deusimar ainda mais relevador não só para ela, mas para os outros co-habitantes do Inferninho: quem foge de suas raízes e tenta abraçar os opressores não terá o reconhecimento que imagina (tentei ser o mais vago possível para evitar spoilers e espero ter conseguido).

Aliás, os últimos minutos de “Inferninho” trazem um momento particularmente brilhante – e que, claro, não explanarei com detalhes, mas direi apenas que mostra… uma passagem de tempo, fazendo bom uso de greenscreen e brincando com o fundo dos planos ao ilustrarem certa imaginação. E complementa bem a obra como um todo, já que, nos quase 80 minutos que vieram antes, o desempenho de Parente e Diógones tinha sido igualmente eficaz: conferindo um ritmo pausado e calculado a uma narrativa que depende de uma abordagem mais contemplativa (e o fato de ser relativamente curto impede o filme de soar cansativo), os diretores criam um longa plasticamente disforme, mas com um propósito notável – afinal, simular uma aparência “bonitinha” não faria sentido em uma história que acompanha personagens maltratados por uma elite que se pretende glamourosa. Em outras palavras: é uma produção que confronta o grande público, o que é indispensável e digno de elogios.

Para completar, é importante lembrar que “Inferninho” gerou certa polêmica, nos festivais em que foi exibido, por trazer como protagonista um homem interpretando uma mulher trans, não uma mulher verdadeiramente trans – e há quem acredite que isto possa enfraquecer tematicamente a obra, o que é compreensível. A meu ver, no entanto, o trabalho de Guto Parente e Pedro Diógones é tão potente que torna-se possível relevar este fato, resultando em um filme que consegue uma proeza admirável: empregar a linguagem para favorecer o (importantíssimo) discurso.

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=wIuTGVsCDIQ

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