Um filme para ser sentido

Por Pedro Guedes


Antes de ser uma obra narrativa, “O Último Trago” é um filme para ser sentido. Trazendo algumas heranças pontuais do Cinema marginal, os diretores Pedro Diogenes, Luiz Pretti e Ricardo Pretti criam, aqui, uma experiência sensorial que não se sente obrigada a desenvolver uma história convencional, demonstrando um interesse infinitamente maior em despertar os instintos do espectador. É por isto, inclusive, que o longa não é particularmente fácil de ser digerido, pois seu ritmo está longe de ser dos mais acelerados, sua estética é bastante agressiva e sua estrutura não se concentra principalmente nos conceitos de início, meio e fim (embora os três estejam presentes no roteiro).

Começando com uma sequência que já leva o espectador a ficar sem entender o que está, de fato, acontecendo, “O Último Trago” se divide em três segmentos bem estabelecidos: no primeiro, uma índia é encontrada no meio da estrada e é salva por um motorista que vagava por ali, levando a vítima para sua casa; no segundo, as atenções se voltam para um barzinho de beira de estrada, revelando parte do cotidiano dos funcionários daquele estabelecimento; e o terceiro arremata o que vinha sendo construído aos poucos através de um clímax impactante, consolidando, por fim, uma história que envolve a memória do massacre dos indígenas que habitavam no solo que, mais tarde, seria dominado pela mentalidade colonialista dos europeus. Trata-se, portanto, de um filme essencialmente brasileiro, tanto em sua forma quanto nos temas que discute.

Eficiente ao explorar as paisagens grandiosas e desérticas que ocupam a maior parte da narrativa (entre estas, incluem-se estradas, montanhas e regiões áridas), o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo cria um contraste fabuloso entre a atmosfera seca e poeirenta daquelas locações e as cores fortes que se encontram nas roupas utilizadas pelos personagens e nos itens cênicos que estão ao redor destes. Aliás, as designers de produção Lia Damasceno e Thaís de Campos fazem um ótimo trabalho ao transformar o barzinho em um ambiente apertado, silencioso e quase abandonado, mas que parece prestes a surpreender o espectador com um estrondo a qualquer momento, ao passo que os figurinos de Thémis Memória se mantém fieis à abordagem colorida e, até certo ponto, lisérgica que a direção e a fotografia impõem através das cores. Para completar, a montagem de Clarissa Campolina impressiona ao estabelecer alguns “cortes de fusão” que se mostram ambiciosos e simbolicamente esclarecedores na maneira como sobrepõem certas imagens.

Por outro lado, a direção de Pedro Diogenes, Luiz Pretti e Ricardo Pretti revela-se irregular: sim, a criação de uma atmosfera melancólica e hostil funciona relativamente bem, levando o espectador a sentir que algo terrível pode acontecer a qualquer instantes; o problema, no entanto, é que este “algo” demora a se concretizar, o que acaba deixando a sensação de que o longa está querendo criar um suspense, mas não tem conteúdo que faça jus ao conceito formal de suspense (imagine uma obra que parece querer dizer algo, mas não o diz – ou demora a dizê-lo). O resultado, portanto, é um filme que soa vazio durante boa parte do tempo e que se estende em planos desnecessariamente longos, comprometendo o ritmo da experiência a ponto de torná-la entediante em vários momentos. Para piorar, o trio de cineastas toma algumas decisões que parecem apropriadas na teoria, mas que acabam decepcionando na prática – e a ideia de pontuar a narrativa com um interlúdio musical, pausando o clima de perigo e urgência que prevalece na maior parte do tempo, soa deslocada dentro do contexto geral da obra.

A sorte, no entanto, é que “O Último Trago” apresenta algumas discussões que o posicionam como um projeto tematicamente relevante e ambicioso – ainda mais hoje, quando notícias a respeito do descaso com a cultura indígena vêm se tornando cada vez mais frequentes. Ao trazer pontualmente a imagem de uma índia que encara os personagens (e o público) com um olhar intimidador, o filme escancara os ecos de uma comunidade que há muito foi massacrada pelos colonizadores e demonstra a dívida que o Brasil tem por ter derramado tanto sangue no passado.

Desta forma, o plano que encerra a projeção torna-se não apenas sinistro, mas catártico. E isto é um triste indício de como este país não fez o suficiente para cicatrizar as feridas que abriu ao longo de sua História.



Curiosidades


  • Embora chegue aos cinemas apenas na próxima quinta-feira (7), “O Último Trago” já vem sendo exibido em festivais e mostras desde 2016, quando foi apresentado no Festival de Brasília. Depois de quase três anos, o filme finalmente está entrando em circuito.
  • Pedro Diógenes, Luiz Pretti e Ricardo Pretti trabalharam juntos em “No Lugar Errado”, de 2011, que também foi co-dirigido por Guto Parente. Além disso, os cineastas têm seus trabalhos individuais: Diógenes dirigiu “Infernino”, de 2018; Ricardo Pretti realizou “O Rio Nos Pertence”, de 2013; e Luiz Pretti foi o responsável pela montagem dos aclamados “A Vizinhança do Trige”, de 2016, e “Arábia”, de 2018.
  • Ivo Lopes Araújo é o mesmo diretor de fotografia que esteve à frente de “Tatuagem”, de 2013, que recebeu críticas bastante favoráveis.

Sinopse


Vidas desconhecidas indiretamente interligadas, mesmo que apenas pelos dramas e paixões. Este é o caso de Augusto, Álvaro, Joachim, Vicente, Marlene, Cláudio, e Valéria que, em lugares e tempos distintos, se encontram em um momento limite entre a vida e a morte. Os vivos pedem vingança. Os mortos minerais e vegetais pedem vingança. É a hora do protesto geral. É a hora dos voos destruidores. É a hora das barricadas, dos fuzilamentos. Fomes, desejos, ânsias, sonhos perdidos, misérias de todos os países, uni-vos!


Elenco


Com Rodrigo Fischer, Samya De Lavor, Rômulo Braga, Mariana Nunes, Elisa Porto, Larissa Siqueira, Ana Luiz Rios, Démick Lopes, Vitor Colares, Nataly Rocha, Fernando Piancó.


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