Vento Norte
...E o Vento Levou...
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineOP 2026
70 anos após o lançamento original, “Vento Norte” prepara seu renascimento. Sendo ele o primeiro filme sonoro produzido no Rio Grande do Sul, foi reencontrado após ter sido dado como perdido. Dirigido por Salomão Scliar em 1951, o filme é um retrato carregado de melodrama de um tempo, de um momento precioso de cinema onde o ritmo era (ou é?) ditado por outras curvas – o mar inclemente com sua fúria, as paixões arrebatadoras e suas finalidades berrantes, e o personagem-título, motivador que suscita transformações e de onde se extrai toda a culpa. Nada é do registro humano; tudo que se é desejoso, é terceirizado para a pobre brisa, identificado inclusive como malévola. Será mesmo?
Scliar bebe de possíveis intenções junto ao neo realismo italiano, substituindo o sol que se abate sobre os personagens europeus por uma certeza climática: quando o vento chegar, nada será como antes. Dessa maneira, “Vento Norte” é título e principal articulador dos bastidores narrativos. Nada do que acontece, e que responde como pulsão de vida, é atribuído ao humano; estão todos reféns de uma força amaldiçoada que muda o curso das coisas, exatamente para o lado que se deseja. Aos poucos, o espectador percebe o jogo manipulativo que existe em torno de cada tipo – “não sou eu, é o vento”, é o discurso predominante. E assim, tudo é o que é paixão, se incumbe de outra culpabilidade.
O trabalho fotográfico de Scliar é quase milagroso, diante dos desafios instaurados no período. Filmar o vento, literalmente, e a força das águas do mar, e conferir a tais imagens que se imbuem das personalidade de suas manifestações, é um registro de desafio pouco repetido no período, e pioneiro para sua região. A partir do seu olhar, podemos antever a chegada de um Cinema Novo que se interessa pelo lugar do outro em sociedade, e em como a mesma se porta em relação à ação tradicional da chegada do estrangeiro. Nesse sentido, trata-se de um jogo de lugar comum, mas que funciona aqui pela intensidade do que Scliar extrai do fenômeno.
O roteiro transforma suas motivações clichês em um jogo funcional de poder entre quatro personagens. João é o elemento que desestabiliza uma vila de pescadores com sua chegada, abalando a confiança de Antônio em seu mundinho de mentiras que ele controla com habilidade. Maria é sua servil esposa, tratada com indiferença até então, e Luísa é sua jovem amante que luta por um sentimento cuja estratégia de manipulação é facilmente manipulável. João escancara a hipocrisia de um homem que criou uma ordem para si de exploração mútua, sem concessões – estão igualmente presas sua esposa e sua amante. E ambas serão tentadas a mudar seu status após a chegada de João.
Scliar dirigiu apenas “Vento Norte”, mas o que ele defende enquanto autoralidade e visão cinematográfica tem pouco precedentes, principalmente por se encontrar em um tempo de exceções. Com poucas referências a quem recorrer, o diretor arma um universo de olhar expandido para suas imagens, conectando geograficamente seus personagens ao seu aspecto emocional imprevisível, entre as decisões de rompantes até as mudanças gradativas, de construções mais complexas. É um quarteto que também tem reverbera o estado de espírito de um lugar provinciano, que não nega suas tradições ao julgar e condenar quem chega para mover suas estruturas.
A restauração concebida pela Cinemateca Capitólio em parceria com a Cinemateca Brasileira foi coordenada por Débora Butruce, que apresenta corpo novo a um filme que antes era dado como perdido para o restauro. A nova tecnologia nos trouxe um filme com profundidade estética, que se comunica tanto pelo rigor de suas imagens quanto pelo envolvimento narrativo. Se “Vento Norte” consegue nos impressionar, é pelo que Scliar elaborou e texturizou com suas imagens; elas condensam uma melancolia extrema de um povo que não aprendeu ainda sobre liberdade de corpos, mas que já tenta comunicar seus desejos. Que o filme de 70 anos atrás já desse voz a uma personagem feminina completamente a frente do seu tempo, e a represente também pelo sabor da constante ventania que sopra, é um frescor inegável que o tal vento maldito nos legou.




