Posto de Combate

A reconciliação

Por Vitor Velloso

Critics Choice Super Awards

O Critics’ Choice (Super) Awards nunca foi uma premiação de grande irreverência em suas escolhas, pelo contrário, sempre serviu de base para outras premiações e se apresentou como alento industrial do grande complexo financeiro de Hollywood. Os indicados da atual edição sintetizam a decadência progressiva que se instala em todo o ramo cinematográfico, em especial nos EUA. “Posto de Combate” de Rod Lurie não é apenas um dos piores projetos presentes na lista, como um absoluto problema para como a representação vem sendo conduzida em solo norte-americano.

Desde os primeiros planos, o espectador assistirá um punhado de fetichismo em torno da situação dos soldados em batalha, uma inclinação de projetar a realidade como algo em nome da bandeira que tantos juram defender. Um ufanismo de quinta categoria que caminha ao lado das imagens de reconciliação com o povo triturado e dizimado pelos últimos governos da “terra da liberdade”, onde os atores recebem um punhado de terra no rosto, para representar o povo do Afeganistão. Um racismo nada velado, que possui conluio imediato de qualquer instituição, grupelho, culto ou “Associação de Críticos” que decida nomear o filme para qualquer premiação.

“Posto de Combate” (2020) assume a falência progressiva da obra e elege Scott Eastwood e Orlando Bloom para capitanear o projeto capitalista de balas, xenofobia e ufanismo. Os atores seguem aniquilando as carreiras, enquanto abraçam os piores longas do reacionarismo da indústria. Paciência. Estão longe de serem atores de alguma relevância e apenas consagram-se como referências do que não fazer. Scott se espelha nas defesas políticas do pai, abraça o conservadorismo do velho Clint.

Comentarista fervoroso, João defende a absolvição de Clint como figura de absoluta proeminência em suas propostas inclusivas, pois abraçou Jazz como frente de capitalização. Claro, porque não? Possui até alguns amigos, correto?

Arestas gratuitas são necessidades internas de defesas da alienação inerte. Scott e Bloom são amigos do afegãos, Lurie tenta representá-los. Ironias à parte, o longa não consegue nem entreter quando está em plena ação, se rende à câmera na mão, berros de “Vamos seus filhos da p…”, “Isso” e outros berros que demonstram a “empolgação” dos norte-americanos, em absoluta situação de “desespero”. A espetacularização da violência como tônica da produção, segue seu fim para nos mostrar os “bravos guerreiros” da terra da liberdade enfrentando a “horda” de Afegãos. É claro, o discurso de embate direto só pode ser comprado através da mídia e de uma representação dessa ficção como frente da realidade, não à toa, o espectador poderá ver as fotos reais dos soldados, vídeos etc. É uma tentativa de cruzar suas representações com qualquer sentimento ufanista inerte. Talvez “Posto de Combate” seja colocado em premiações exatamente por este motivo, como uma comprovação do conservadorismo das instituições cinematográficas.

A decadência é inevitável. A lista de indicados da edição apenas comprova que a gangrena já atingiu um estágio elevado. Caleb Landry Jones decepciona no filme, escolhe seu pior projeto, mas ainda tenta criar alguma interpretação minimamente empática, fora dos “machões” fardados. E acaba protagonizando o único movimento da encenação que funciona minimamente, suas inda e vinda a locais diferentes da batalha, consegue dinamizar um pouco a longuíssima cena de tiroteio que encerra o longa. Se por um lado esse recorte funciona por uma instalação do caos com breves momentos de tensão entre os personagens, não os soldados, o traçado é sempre delineado pela postura de um nacionalismo que masturba-se com pólvora e sangue estrangeiro.

“Posto de Combate” é o retrato da representação política do cinema aplaudido de pé pelos invasores do Congresso. Não consegue fugir de nenhum nó reacionário, abraça todos eles como quem faz propaganda e crê no alistamento de mais pessoas para a “força armada pela democracia e liberdade” dos EUA. É um longa de aliciamento político, como o grosso de Hollywood, mas aqui o tom militar não se trata de uma questão, sim de uma vida que veste essa farda. E a tentativa de humanizar a chacina, não funciona, mas pode derramar algumas lágrimas brancas, vermelhas e azuis da burguesia conservadora.


Filme está disponível nas plataformas digitais Itunes, Now, GooglePlay, Youtube, VivoPlay e SkyPlay.

Trailer

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