Reparação

Como temperar o feijão 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026

Reparação

Orfandade. Não existe mais uma referência pregressa a nós. Todos se foram, todos que nos compõem diretamente não existem mais. Matéria física que se desfez. O que resta quando a referência acabou? Quando a origem de seu DNA desapareceu? “Reparação” não é sobre nada disso, mas provavelmente nos leva a essas e muitas outras reflexões parecidas, ou derivadas. Marcus Curvelo é o diretor de “Mamata”, “Joderismo”, “Garotos Ingleses”, “A Destruição do Planeta Live”, “A Nova Melancolia” e estreia aqui seu primeiro longa-metragem solo, após “Eu, Empresa”. Todos os seus filmes anteriores, toda a sua postura enquanto artista criador e ator que também o é, refletem uma personalidade que permeia uma automelancolia, aliado a um corpo que ri de si mesmo. Esse Curvelo não está aqui.

Aqui, a graça talvez resida no desconforto, nas suas projeções visuais diante de uma tentativa de fabular as perdas e o horror da solidão compulsória. Curvelo é um artista que propõe muita informação ao que elabora de pensamento, que joga o próprio corpo em um risco sem contenções. Corpo, rosto e o que reside dentro deles. Sempre colocando-se em perspectiva de descoberta particular, e propondo isso junto ao espectador, em “Reparação” o artista está no centro emocional, e aqui é um caso onde a palavra emocional diz muito sobre a questão. Ainda que, sob uma ótica, nada aqui sugira a facilidade ou o lugar comum da emoção; justamente por isso o filme avança em terrenos ainda pouco burilados sobre o luto.

Marcus abre “Reparação” informando, de maneira não explícita, que seu pai já não está mais no plano físico. A passagem de uma referência direta, a relação que ele estabeleceu com seu pai e maneira como ele se porta diante dessa perda, passa pelo que ele começa a texturizar com a mãe, que passa então a ser o foco da questão. Sua relação com ela a partir desse primeiro desaparecimento, esse homem que já não habita mais o sofá, um fantasma que se desloca por imagens e sons, é o que povoa o imaginário desse documentário que é dos mais íntimos que o cinema brasileiro produziu ultimamente. E isso não porque trata-se de um olhar sobre si e a própria família, mas em como as múltiplas perdas nos mostram novas versões de nós mesmos.

Todas as escolhas de Curvelo batem na tela de maneira acertada. Desde o preto e branco da bela fotografia (assinada por ele e Danilo Umbelino), que desloca nossa percepção para tudo que foi descrito até agora – as perdas, o deslocamento que permeia a solidão, a sensação de ausência de todas as ordens; a alegoria que seu corpo interpreta, tanto pelo cone de trânsito transformado ora em biruta temporal, ora em megafone ao contrário, a absorver o vazio e a morte; o pensamento acerca do ferrugem provocado pela maresia conhecida da Bahia. “Reparação” é uma obra cuja subjetividade acaba por atingir qualquer espectador, tenha ele passado por perdas ou não, porque seus arranjos visuais tem bom gosto e ao mesmo tempo comunicam de maneira fluida os sentimentos e o vazio.

Mas existe uma provocação em “Reparação” que pode não ter sido elaborada por Curvelo. Vivendo em tempos de “filme de churrasco” (aquele que conversa muito mais com a realidade do realizador, geralmente em documentário), o que seu autor apresenta aqui pode ser acusado de irrelevante, afinal não conhecemos Joel ou Sônia. Provavelmente esse apontamento irá surgir em algum lugar, oriundo de algum debate, relevante ou não; o que está na tela, no entanto, é efetivamente mais belo e atravessador de vivências do que um ou outro indivíduo consegue elaborar. O resultado é o mais coletivo filme particular que 2026 nos apresentou.

Os símbolos que surgem naturalmente são o estopim para que as fissuras de pensamento do autor alcancem, enfim, o outro. A imagem quebrada, que logo depois é colada, e posteriormente ganha status de oferenda é uma delas, que realça uma possibilidade de reconhecimento da saída do acaso para a escolha concreta; do improvável ao inevitável. “Reparação”, ao contrário de outros filmes de Curvelo, não nos apresenta um caos organizacional que exploda o que está ao redor dos eventos; ele promove a implosão, ainda que em nome das certezas que temos quando nossos pais estão vivos. Ou… no fundo tudo se resuma ao cheiro da carne assada, da cebola dourando para o tempero do feijão, da arma antiga deixada como bizarra herança, ou dos exemplos que ficarão em nós, e que nós, no momento certo, passaremos adiante. Positivos ou negativos. São esses exemplos que fornecem a imortalidade das coisas, das pessoas e das relações.

4Nota do Crítico51

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