Não Me Deixe Morrer
Primavera sem fim
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026
O cinema romeno não tem concessões à uma pretensa fórmula cinematográfica regente; eles filmam e elaboram suas reflexões a partir de uma lógica particular, seguindo códigos próprios. Quando nos deparamos a algo como “Não Me Deixe Morrer”, e suas convenções e lógicas foram colocadas a serviço dessa métrica regional, a intenção do olhar estrangeiro é tentar classificar de uma outra maneira esse jogo que já conhecemos. Com mais de 20 anos que a Primavera Romena foi instaurada, através de títulos como “A Morte do Senhor Lazarescu”, a entrada em uma nova narrativa deles já está conectada a outro código de leitura da cinefilia. Andrei Epure estreia em longas metragens com o melhor do que sua radiografia espacial poderia apresentar.
A partir do encontro com o corpo de uma vizinha morta na frente de seu prédio, Maria não consegue mais fugir da assombração em sua vida, mas essa ideia vai além do que está explícito na forma, e na sinopse. Como cidadã romena, ela tem sua existência já atrelada a outras formas de fantasmagoria diárias, ligadas ao passado político local, ao abandono estatal, ao que é tradicionalmente caro e problemático na fauna local. “Não Me Deixe Morrer” é sombrio de uma maneira que a própria existência romena consegue elaborar, sem um avanço sobre a ordem natural das coisas mediadas pelo país. Assim como é tradicionalmente em seus longas, não existe assombro maior do que a constatação de uma solidão intrínseca e a uma certeza de impasse que trava a burocracia das coisas e das relações.
O filme parte de uma premissa onde o horror encontra lugar para existir em meio a um naturalismo compreendido pela Romênia – em tese, isso significa um naturalismo muito peculiar, onde nada é exatamente como na energia de outros cinemas. Quando floresceu, há pouco mais de 20 anos, essa Romênia das telas nos colocou a par de uma realidade arriscada, observada sob um ponto de vista quase em caráter de intrusão. Ordem do governo conversam de maneira absurda com os meios universais, e as pessoas vivem em realidades onde a tragédia é incorporada ao dia a dia. Em outra instância, também estão a disposição essa fatia onde a metáfora alegórica é quase uma fuga da concretude do mundo, como em “Casamento Silencioso”. “Não Me Deixe Morrer” trafega entre os dois sempre indo além dos limites para estender sua linguagem.
Sua protagonista, apesar da assombração, não demora a associar sua imagem e personalidade à de sua vizinha. Adotando seus cachorros e sua família, indo na margem da exasperação, ainda que não fuja de um certo cinismo, a narrativa busca testar as possibilidades de compreensão das ações dessa figura central. Isso está em chave que paraleliza o cerebral e o artificial em equilíbrio curioso, mantendo o roteiro e sua realização em um lugar indecifrável. São duas chaves interessantes, que montam um mosaico para o tradicional cinema do país, mas também conversa com o cinema da Tailândia, nesta absorção dos códigos de gênero por meio do realismo fantástico.
“Não Me Deixe Morrer” investe em um clima inventivo para a apresentação do que é investigado, porque nem sempre as lacunas serão respondidas pela obra. A ideia de mergulhar em uma espécie de pesadelo ininterrupto, vivendo em uma sociedade paralela que se apresenta com diversos detalhes desencaixados, é uma costura que o filme não se cansa de fazer. São os policiais fanfarrões (a seu modo) que a perseguem, é o filho da falecida que cria uma nova relação de conflito com ela como se ela mesma fosse sua mãe, é a sintonia que a personagem vai adquirindo com a morte propriamente dita. São detalhes que revelam o tanto de fantástico que reside em um filme de moldura menos fantasiosa.
Como esse é um filme cujas saídas de roteiro já foram vistas em muitos outros lugares que não apenas a própria cinematografia local, “Não Me Deixe Morrer” mostra que o país não precisa se auto referenciar em excesso, em seu ‘modus operandi’. O tom acinzentado apresentado mostra que o humor fora dos padrões apresentado pelo diretor é tão descompassado, que isso acaba revelando uma camadas ainda mais surrealistas que o filme desenha. A atriz Cosmina Stratan (vencedora do prêmio de atriz no Festival de Cannes por “Além das Montanhas”) move-se com muita propriedade dentro desse quadro que mostra a sororidade feminina indo além do plano material.




