Nagi Notes

A verdade está lá dentro

Por Fabricio Duque

Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2026

Nagi Notes

Será que o tempo narrativo mais contemplativo do cinema, especialmente o asiático, há alguns anos consegue encontrar lugar no do agora em que vivemos? Essa demanda excessiva do nosso contemporâneo pode estragar a experiência dos realizadores que integram o time dos “mais observadores”? Ou a tendência é que tudo seja adaptado à modernização do hoje? Essas são questões importantes, ainda que retóricas, e muito relevantes, para se pensar sobre o novo longa-metragem “Nagi Notes (Quelques jours à Nagi)”, de Kôji Fukada, filme que integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2026.

Essa discussão parece ganhar ainda mais foco por conta da construção ambiente de seu realizador japonês em sua obra, que desenvolve um tempo suspenso e sensorial, chegando a ser único, visto o propósito intrínseco da distância para com o espectador. Só que isso tudo acontece pela metafísica mais realista numa encenação, mais tecnicamente e protocolar, ao coloquialismo das micro ações do dia-a-dia. Pois é, complexo. E para adentrar nessa narrativa é preciso desbloquear as camadas comportamento-existenciais, enquanto indivíduos convivendo juntos no coletivo.

Como dissse, “Nagi Notes (Quelques jours à Nagi)” nos conduz por uma mise-en-scène particular. Quase de sonho vívido acordado (num que de encenação do próprio naturalismo), mas conservando uma das características típicas desse estágio que é a de observar distante e passivamente, numa estrutura de filme-calendário, também de coincidências situacionais, contando dia após dia. Isso tudo é sentido ainda que esta obra converse muito com a atmosfera do cinema Hong Sang-soo, por estender o tempo das cenas, as pululando ora com conversas, ora com crônicas-cotidiano, ora com silêncios, ora com a mais inocente simplicidade coloquial. Assim como o diretor sul-coreano, aqui a narrativa se desenvolve de forma ágil, na maioria das vezes em travelling  sensoriais. Essa câmera acompanha as personagens, revelando relações humanas mais diretas em suas verdades-vontades e em suas metáforas sutis (“Países estrangeiros são longes”, diz-se após uma delas voltar à terra natal; e/ou os barulhos de explosões vindo de campos de defesa).

Sim, embarcar em um filme japonês é receber uma sucessão de simbolismos (quase de partituras ingênuas), cujos signos representam críticas ao sistema de governo e à guerra da Rússia-Ucrânia, à “evolução” do novo indivíduo enquanto ser-humano social, às mudanças comportamentais dos outros próximos (este especificamente faz com que remetamos ao filme “Monster”, de Kore-eda Hirokazu), à valoração das artes (pintura, escultura). É também de metafísicas, principalmente percebido no instante do zoom direto, que suspende o exato momento do agora para assim expandir suas sensações, pelo singelo e delicado. Sim, nós sentimos. Em especial, na cena do café da manhã. “Nagi Notes (Quelques jours à Nagi)” pode também ser um coming of age mais atrasado de uma mulher que foi sugada pelas apressadas demandas e convicções externas.

Quando disse sobre esse tempo mais incompatível com o nosso contemporâneo, parece também estar tácito a forma como essas personagens veem a vida, talvez por “aumentarem” a duração de um dia e talvez por se “acostumarem” com a não possibilidade de colocar em prática seus verdadeiros desejos e impulsos (talvez por medo do que acontecerá no futuro com a escolha). Até que uma situação muda tudo, desperta o gatilho e assim a urgência de viver o querer real. “Nagi Notes (Quelques jours à Nagi)” busca ser também uma universal, porém de pessoalidade mais individual, e paradoxal (como por exemplo pela festa da primavera) experiência orgânica e “isolada” da própria existência. Uma crônica rural em Nagi, com uma população de 5512 vivendo lá em 2437 casas. Talvez por causa dos ângulos não convencionais, das imagens simétricas, dos planos longos e distantes, da câmera escura como conceito, e talvez até pela não fluidez de sua narrativa, que deixa a liberdade contemplativa solta demais.

“Nagi Notes (Quelques jours à Nagi)” é também um filme-provérbio, entre imaturos e realistas, entre ambientes “pesados”, entre pragmatismo robótico e empatia, que ensaiam movimentos e que se perdem nos próprios propósitos almejados. Kôji Fukada ganhou o Prêmio do Júri Un Certain Regard em 2016 com “Harmonium”, que aborda os conceitos contraditórios de prisão e liberdade nos dramas domésticos. Neste, seu realizador também quer mostrar os dilemas e os esperados colapsos, que cura a culpa, preconceitos, moralismos e a sensação de se estar sempre contra o mundo. De não mais pedir atenção ao pertencimento do fora. A mensagem que este longa quer nos passar é que a verdade está lá dentro.

2Nota do Crítico51

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