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Monster

Quem é o Monstro?

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2023

Monster

Monster”, realizado em 2023 pelo talentoso Kore-eda Hirokazu, soa ambíguo logo no título: Monstro, que monstro? Essa é uma palavra que pode ser tranquilizadora, à luz do seu uso desenfreado pela indústria do entretenimento, sobretudo para o público infantil. Algo estranhamente familiar, diria Freud: seres que transgridem as leis do mundo à nossa volta, que entendemos por natural – e, com sua presença, detonam medos e ansiedade. A saturação dos “monstros”, esse “outro” corporificado em algo fora do comum, é experimentada pelas crianças como saturação da ordem dos adultos. Este é um filme protagonizado por crianças pré-adolescentes, que vivem à sombra do mundo complexo (mas não tão misterioso) dos adultos: a relação com o imaginário da produção audiovisual que explora esse filão, desenhos animados especialmente, é direta. Um filme que pode ser sacado da trilha sonora de Ryuichi Sakamoto, a um tempo solar e melancólica, elaborada com piano e sintetizador.

Uma das chaves para perceber a urdidura da trama, a música de Sakamoto tem, nas suas palavras, uma complexidade esotérica. Mas é também uma música de mood, daquelas que jazem por debaixo do pano nas narrativas fílmicas e quase não são ouvidas. Sakamoto é uma espécie de codiretor acústico de Kore-eda: a solidão de Minato e seu amigo, Yori, sobressai sem a necessidade dos clichês habituais. A colaboração com o compositor, uma legenda no Japão, se deu ao final da vida de Sakamoto, que só conseguiu escrever duas composições para “Monster”: uma foi usada na cena em que a mãe de Minato, Saori, confronta o professor das crianças, Hori, por supostos insulto e agressão; e a segunda foi na sequência final. Para completar a trilha, Sakamoto, debilitado por doença terminal, autorizou uso das composições de seu último álbum solo, “12”.

O detalhe da música extrai sua relevância através da construção da narrativa. De início, estamos diante de uma história que provoca sentimentos negativos em relação aos personagens: eles agem, mas se revelam, inesperadamente, influindo em nossa percepção. À medida em que muda o ponto de vista de quem observa (o narrador cinematográfico invisível), são preenchidas as lacunas que irão modificar nosso julgamento. O conceito filosófico que baliza a reação do espectador seria, em última análise, a crítica da faculdade de julgar. Uma óbvia referência é o clássico “Rashmon”, que Akira Kurosawa dirigiu em 1950: um crime narrado por três diferentes visões. No filme em tela, o roteirista Yûji Sakamoto adaptou a ideia para o universo familiar de Kore-eda – relações intrafamiliares e o entorno próximo.

Monster” começa com um incêndio visualmente impactante em um edifício – um marcador crucial que Kore-eda retoma para demarcar as alternâncias do enredo, ou seja, as alternâncias dos pontos de vista. Saori e o filho Minato assistem as labaredas da varanda do seu apartamento, ambiente amoroso e familiar. Em seguida, ambos celebram o aniversário do marido (e pai), jogador de rúgbi, morto há anos. Minato começa a demonstrar comportamento errático, chega em casa com apenas um tênis, corta o cabelo aleatoriamente – e confessa à mãe que Hori, o professor, o agrediu e disse que ele tinha cérebro de porco. Saori, a mãe, carrega a narrativa e parte em busca de justiça.

O sapato perdido também se torna um elo entre as diferentes cronologias, cada vez que alguém o experimenta uma camada de percepção é adicionada. Na etapa que se segue, comandada pelo ponto de vista de Hori, desvanecem-se as suspeitas sobre o professor. Ele mesmo é vítima do bullying da equipe do colégio, começando pela enigmática diretora (e professora de música). O universo continua se expandindo, informa Yori, o amigo de Minato, vítima de constante assédio pelos colegas – e o escopo da narrativa também.

Minato, claro, não contou toda a verdade à mãe. Hori aparenta um nervosismo defensivo, diante da indiferença da diretora: mas esse traço não é suficiente para configurar uma imagem consistente do personagem, que permanece com pontos obscuros. Seria ele frequentador do bar de acompanhantes, eufemismo para prostitutas, no terceiro andar do prédio que pegou fogo? O filme não insiste em explicar porquê ou quem é responsável pelo que acontece – até o terço final da história, contada a partir, enfim, de Minato e o mundo de fantasia que constrói com Yori.

As crianças sabem muito mais do que imagina a vã consciência dos adultos. Kore-eda Hirokazu tem noção dessa verdade universal, e conduz com particular felicidade as transições afetivas e emocionais dos atores-mirim, escolhidos depois de longas audições – o diretor ainda conviveu seis meses com ambos antes de rodar a produção. Convivência diária, fazendo ensaios, jogando futebol e comendo juntos. Eles não podiam ser eles mesmos em casa e na escola, comentou. Ao ar livre, eles podem ser eles mesmos e ser fiéis a quem são, concluiu.

4 Nota do Crítico 5 1

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