Mestres do Universo
Um filme que tem a força!
Por Fabricio Duque
Nostalgia talvez seja a principal questão terapêutica de toda e qualquer existência humana para que se possa tentar explicar a sensação que nós constantemente evocamos do passado, especialmente da infância, como se fosse uma busca a uma inocência perdida. Isso desperta uma lembrança, que também se comporta como uma memória protegida, de reimaginação intocável. Assim, “reacordar” esse sentimento é perigoso, porque pode destruir uma construção de toda uma época nossa, que se habita em forma de refúgio. E ainda muito em especial quando o cinema tenta trazer pelo viés de ficção realista personificada esse passado, que era apenas uma utopia-memória revestida de felicidade incondicional. Sim, é inevitável não sentir medo de uma possível desconstrução de tudo o que condensamos ao nos depararmos com uma nova versão, em live action, de uma realidade humana advinda de um desenho animado marcante e icônico. Que moldou não só uma infância, como também nossas percepções sobre as coisas.
Pois é, todo esse preâmbulo do parágrafo anterior é para falar da figura de He-Man no novo longa-metragem “Mestres do Universo”, que me remete imediatamente à forma colóquio-comportamental dos anos oitenta e de quando eu corria da escola para assistir os episódios na Rede Globo, enquanto almoçava a comida que minha avó fazia: arroz, feijão, batata frita e ovos cozidos. Sim, nostalgia, para mim e talvez como um todo definidor, tem gosto de simplicidade. De felicidade completa e genuína. Pois é, vocês entendem agora o medo prévio ao retornar essas lembranças sensoriais? Como é então rever tudo isso na nova versão do filme dirigido por Travis Knight em seu terceiro longa antes de “Bumblebee” e “Kubo e as Cordas Mágicas“? Será que nossas expectativas foram alcançadas? Olha, sim, preciso dizer que foi um sim bem satisfatório. Muito até. Tudo porque aqui não houve a preocupação em mascarar, tampouco performatizar a experiência com a “modernização” da nostalgia passada. Respeita-se assim todas as “lembranças cafonas”. Sim. Era exatamente dessa forma que víamos o desenho animado “Mestres do Universo” com suas personagens modelares de caráter: o Príncipe Adam que se transforma em He-Man, o Esqueleto, o Mentor, o Gato Guerreiro.
E então, quando “Mestres do Universo”, da franquia Mattel (que recentemente também lançou “Barbie” nos cinemas), mantém a trilha sonora original e traz referências internas, é o ápice catártico e arrepiante, em especial com seu “Pelos poderes de Grayskull, eu tenho a força”. O impacto, em forma de contação de histórias, faz com que voltemos literalmente aos anos oitenta (e à esse “Planeta de Belezas sem fim”), ainda que com todos os detalhes estéticos do agora. Se na versão de 1987, realizado por Gary Goddard, o filme procurava mais a ação, aqui, neste de 2026, o propósito é de épico ao apresentar o Príncipe Adam antes de seu poderoso alter-ego. Assim, a narrativa de “Mestres do Universo” do agora imprime um tom bem mais descontraído, despretensioso, fluído na emoção sensorial, empático, sóbrio nos quereres, sem reações sentimentais e sem clichês, naturalmente espirituoso (com um humor auto-debochado no limite exato da graça do constrangimento, como por exemplo, quando Adam vai em um date e conta tudo de cara de quem é; e/ou quando o próprio filme daqui coloca o ator “Macho Man” Dolph Lundgren, que interpretou “He-Man” no longa passado, para dar ensinamentos da “boa porrada” ao novo “He-Man” Nicholas Galitzine; e/ou quando se comportam desengonçados – e amadores – no mundo real e não mais na fantasia) e sem, lógico, deixar de lado propriamente dita a ação, com seus ensinamentos de luta e de defesa; toda a rotina cotidiana; e todos os perigos iminentes, invasões e ataques.
“Mestres do Universo” é uma picardia no tom certo das zombarias. Incluindo até o meme do cabelo louro e da camisa rosa. O filme evoca o que precisa evocar, age como precisa agir e mostra o que fomos para assistir. Assim, entre fantasma invadindo o mundo real, zonas de conflitos, espada perdida, mundos submundos destruídos, poderes relembrados, tudo é na verdade uma mensagem de auto-ajuda sobre reencontrar a força “salvação” que perdemos, mas sem a forma coach de ser. Como disse, a maestria desta nova versão está totalmente em não esperar ser diferente do que era quando o desenho foi criado. Esse respeito à nostalgia, essa despretensão, em não querer “modernizar” o “brega” que definia os anos oitenta, faz com que “Mestres do Universo” já nasça cult, nerd e uma digna homenagem a todo um universo consumido que eu assistia com os olhos vidrados e recebendo uma bronca da minha avó porque a comida estava esperando no prato. “Mestres do Universo” é um filme que tem a força.




