Meio Dia
Rompendo todos os horrores
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a CineOP 2026
É muito difícil olhar para uma obra que você conhece e admira há alguns bons anos, e ter que se dedicar a ela, que continua a te seduzir cada vez mais; a abertura da CineOP 2026 programou para a sessão de abertura parte das homenagens a Helena Solberg, exibindo então grande momentos de sua filmografia. Um deles é “Meio Dia”, curta metragem de 1970 da cineasta, que a cada nova sessão e/ou assistida, revela um pouco mais de força. Filho direto dos horrores políticos produzidos à margem da ditadura, o filme é uma representação simbólica da força que um povo adquire quando percebe que os conceitos de liberdade não podem ser cerceados.
O filme acompanha um personagem específico, retrato de um microcosmo do tempo especificado. Esse jovem andarilho é também ele produto de sua época, correspondente da fatia social mais atacada do período – a juventude. Solberg subverte as expectativas ao escolher um elenco não apenas jovem; estamos diante de um grupo de crianças. O que se vê a seguir não é apenas uma sequência de eventos de crescente tensão, mas um retrato quase aterrorizante da sociedade. De aparência bucólica inicialmente, em um registro que encontra ecos em Jean Vigo e em François Truffaut, “Meio Dia” avança por um terreno cada vez menos tranquilo, revelando suas inspirações, cinematográficas e (a)temporais.
O que se apresenta de maneira livre, quase um ambiente onírico em preto e branco com seu arroubo juvenil libertário, se transforma em um jogo à espreita do cinema de gênero, onde um filme como “A Cidade dos Amaldiçoados”, de 1960, se torna fonte de imagens. E acaba também movendo nosso olhar em torno de obras como “Os Meninos”, de 1976, e “Colheita Maldita”, de 1984 – como observar a ação da inocência diante do terror? Solberg produz imagens de força inegável, apenas no rumo de mover um conteúdo político para suas indagações; sem perceber, também estaria promovendo iconografia do horror para a cinematografia brasileira.
Quando tais crianças de “Meio Dia” criam mecanismos próprios para interpelar o poder instituído, Solberg não reluta em motivar sua investigação em torno de uma gênese de um momento do Brasil. Hoje, seu filme conversa não apenas mais com a censura, com a luta armada de jovens estudantes, com a insurreição diante de esferas de manutenção da repressão. Também está ali um retrato afiado acerca do espaço imagético do cinema fantástico: a fúria entorpecida de um grupo minoritário que recusa o reconhecimento da máquina. De alguma forma, também trata-se do mesmo dispositivo usado por George Romero em “A Noite dos Mortos Vivos” – quem está em posição de desvantagem, encontra sua própria maneira de escrever sua narrativa.
Sendo também Solberg a única mulher diretora atrelada ao Cinema Novo, seu olhar não se enverga perante o que era considerado Elite. “Meio Dia” invade os olhos e ouvidos do espectador ao som inclemente de Caetano Veloso, que brada o hino de uma época. Com a pureza juvenil retratada na correria de um recreio como outro qualquer, que não deixa de revelar suas curvas emocionais através de cada novo encontro, o “eu digo não ao não” de ‘É Proibido Proibir’ ecoa ressignificando essa aparente inocência. Nada mais seria o mesmo depois de 1964, mas Solberg molda uma obra atemporal que mostra leituras diversas através do que está contando.
Nosso protagonista, uma figura por vezes cruel e por outras muito progressista, está na beira de um rio que levará seus livros e cadernos. Seu espírito avassalador é reverberado por todos que eventualmente o cercam; ele é sujeito particular, mas também mentor de um outro tempo. O próximo tempo. Aquele que não dará trégua para a passividade, e enfrentará os maiores em nome de fazer valer a sua voz. “derrubar as prateleiras / as estátuas, as estantes / as vidraças, louças, livros…” – é tempo de novas revoluções, mas em 1970, Helena Solberg soube prever muitos caminhos para muitos futuros.




