Balanço Geral e Vencedores da Mostra de Tiradentes 2024

Balanço Geral e Vencedores da Mostra de Tiradentes 2024

Saiba tudo o que aconteceu no festival mineiro que aconteceu de 19 a 27 de janeiro

Por Vitor Velloso (à convite)

Após três dias de exibição e cobertura da Mostra Olhos Livres e da Mostra Aurora foi possível notar que o caráter inventivo da Mostra de Cinema de Tiradentes permanece como seu grande diferencial, mas que nenhuma obra conseguiu grande destaque ao longo desse recorte. No primeiro dia da Mostra, o Vertentes do Cinema teve a oportunidade de conferir “Foram os Sussurros que Me Mataram”, de Arthur Tuoto, pela Mostra Olhos Livres. A produção teve uma recepção bastante dividida após a exibição no Cine-Tenda. Em seguida, aconteceu a exibição de  “Eu Também Não Gozei”, de Ana Carolina Marinho, da Mostra Aurora, que foi aplaudido pelo público presente na Tenda. E que, apesar de procurar uma característica particular para o desenvolvimento do documentário, acaba enfrentando alguns problemas na estrutura geral da obra. Discuti melhor isso na crítica. 

No dia seguinte, aconteceu o debate sobre “Foram os Sussurros me Mataram”, com a participação do crítico convidado João Pedro Faro e com a mediação de Juliano Gomes, curador. Ao que tudo indica, existe uma defesa constante da curadoria este ano em Tiradentes de “ir à favor do risco”, alegando que mesmo com uma série de divergências sobre a seleção de determinados filmes, eles gostariam de realizar uma seleção que permitisse o risco. É uma postura particularmente ousada, mas que põe em xeque algumas das ideias propostas pela curadoria anualmente na Mostra de Tiradentes. Nota-se que o debate colocou ideias tão interessantes para discussão com o público, inclusive remetendo à temática da atual edição, apenas revela que é um projeto frustrado com sua própria projeção, que foi incapaz de atingir seus objetivos.

No segundo dia de exibição, o Vertentes conferiu “A Câmara”, de Cristiane Bernardes e Tiago de Aragão, documentário observacional que teve boa presença durante alguns momentos de sua projeção, mas que não encontra um objetivo claro e acaba perdendo fôlego com sua progressão. Debati sso melhor na crítica. Na segunda sessão do dia, “O Tubérculo”, de Lucas Camargo de Barros e Nicolas Thome Zetune, trouxe a característica mais conhecida da Mostra Aurora: uma provocação formal que não tem interesse em permanecer na zona de conforto durante toda sua duração. 

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No outro dia houve o debate de “A Câmara”, com a presença da crítica convidada Claudia Mesquita e mediação de Camila Vieira, curadora. E o debate de “O Tubérculo”, com a crítica Paula Mermelstein e mediação do Marcelo Miranda, jornalista e crítico de cinema. A noite, aconteceu a exibição de “SOAP”, de Tamar Guimarães, que foi pensado em uma exibição seriada e teve uma montagem especial para exibição na Mostra de Cinema de Tiradentes. A sessão teve uma das maiores desistências do público e não conseguiu cativar a plateia com sua narrativa fragmentada, em formato de novela de esquerda, que não funciona nem como debate político, nem como projeto estético, por mais que possua uma encenação que tenha algum grau de elaboração. 

Em seguida, houve a exibição de mais da Mostra Aurora, “Maçãs no Escuro”, de Tiago A. Neves, que com uma recepção moderada do público, tensionou sobre a frustração de fazer arte no Brasil e uma dialética entre o fracasso e o prestígio. Leia a crítica no site! A 27a Mostra de Cinema de Tiradentes continua com a característica de procurar provocações estéticas que fujam do padrão do cinema comercial e que seja capaz de chacoalhar os debates entre o público e os realizadores. A curadoria mantém suas características, mas encontra uma nova forma de provocar debater através da aceitação dos riscos na curadoria das Mostras.

Na quinta-feira, aconteceu o debate do filme “SOAP” com o crítico convidado Luiz Carlos Oliveira Jr. – MG e com mediação do curador Juliano Gomes – RJ e o debate do “Maçãs no Escuro”, de Tiago A. Neves, com a presença do crítico convidado João Campos – SP e mediação do Jornalista e Crítico de Cinema, Marcelo Miranda – MG. Mais tarde, aconteceu a exibição de “Aquele que Viu o Abismo”, de Gregorio Gananian e Negro Léo, com uma das exibições mais intensas da 27a Mostra de Cinema de Tiradentes, e a exibição de um dos longas-metragens mais aguardados da atual edição, “Sofia Foi”, de Pedro Geraldo, que foi capaz de emocionar o público, em um drástico contraste com a sessão da Olhos Livres. E a última sessão do dia, “Not Dead”, de Isaac Donato, em que os espectadores tinham uma grande expectativa, por conta do último projeto do diretor, “Açucena”, mas que se transformou em uma das obras menos comentadas de Tiradentes, pelo caráter de estranheza que a performance do documentário propõe. 

Renato Silveira Abraccine Mostra de Tiradentes 2024

No último dia da Mostra Aurora e Olhos Livres em Tiradentes, o dia começou com o debate do filme “Aquele que Viu o Abismo”, de Gregorio Gananian e Negro Léo, com o crítico convidado Pedro Henrique Ferreira – RJ e mediação do curador Francis Vogner dos Reis – SP. Em seguida, o debate de “Sofia Foi”, com a presença do crítico convidado Wallace Andriolli – RJ e mediação do jornalista e crítico de cinema Marcelo Miranda – MG. De noite, aconteceu a exibição de “Seu Cavalcanti”, de Leonardo Lacca, encerrando a Mostra Olhos Livres, filme que teve uma recepção calorosa no fim da projeção no Cine-Tenda. E as duas últimas exibições da Mostra Aurora, “Lista de Desejos para Superagüi”, de Pedro Giongo, e “Eros”, de Rachel Daisy Ellis. 

Por último, no sábado, aconteceu o debate do filme “Seu Cavalcanti”, com o crítico convidado João Luiz Vieira – RJ e mediação da curadora Lorenna Rocha – SP. Em seguida aconteceu o debate do filme “Lista de Desejos para Superagüi”, com a presença do crítico convidado Gabriel Araújo – MG e mediação do jornalista e crítico de cinema Marcelo Miranda – MG. Às 19h30 aconteceu a exibição do filme de encerramento, “A Transformação de Canuto”, de Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho. E para encerrar a programação da 27a Mostra de Cinema de Tiradentes, a cerimônia de encerramento que apresentou os vencedores da edição. 

Mostra de Tiradentes 2024

A 27a Mostra de Cinema de Tiradentes, aconteceu entre os dias 19 e 27 de Janeiro, exibindo mais de 145 filmes, de diversas regiões do país, e segundo release da própria Universo Produção: “Para a realização do evento – que é o maior e mais longo dedicado exclusivamente ao cinema brasileiro no país – foram gerados cerca de 2.500 empregos diretos e indiretos; mais de 250 empresas mineiras foram contratadas e aproximadamente 180 pessoas atuaram na execução da Mostra. Em valores monetários, foram cerca de R$ 10 milhões em recursos injetados na economia local, vindos do público de 35 mil pessoas que passaram pela cidade, número cinco vezes maior que a população do município. “A Mostra Tiradentes trouxe mais uma vez uma programação cultural abrangente e gratuita, que é sinônimo de um trabalho coletivo e determinado. Ao lado da mais relevante produção audiovisual, tivemos as participações fundamentais dos patrocinadores, dos parceiros, do poder público, das entidades de classe, dos profissionais da cultura, dos veículos de comunicação, do público e da comunidade. Além de todas as reflexões, experiências e encontros proporcionados, a Mostra deixa um importante legado para o desenvolvimento social, humano e econômico local”, destaca Raquel Hallak, diretora da Universo Produção e coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes.

Nesta edição, a programação contou com uma seleção de 145 filmes, que incluiu 43 longas, 3 médias e 99 curtas-metragens de 20 estados: Alagoas (4), Bahia (3), Ceará (7), Distrito Federal (4), Espírito Santo (2), Goiás (5), Maranhão (1), Minas Gerais (45), Mato Grosso (1), Pará (3), Paraíba (1), Pernambuco (10), Paraná (4), Rio de Janeiro (22), Rio Grande do Norte (3), Roraima (1), Rio Grande do Sul (3), Santa Catarina (2), Sergipe (1) e São Paulo (32). As produções puderam ser conferidas em 61 sessões de pré-estreias e mostras temáticas, em três cinemas instalados na cidade: Cine-Praça, Cine-Tenda e Cine-Teatro. Além destas exibições, na plataforma do evento (mostratiradentes.com.br), o público pode assistir a 33 filmes online e acompanhar os debates que foram disponibilizados para acesso gratuito, de qualquer lugar do mundo.”

A premiação aconteceu na noite do dia 26 e teve cobertura integral do Vertentes do Cinema na noite de encerramento. O site decidiu fazer uma lista de destaques da Mostra Olhos Livres e Mostra Aurora, e também uma impressão geral das exibições na 27a Mostra de Tiradentes.

Aquele que Viu o Abismo

MOSTRA OLHOS LIVRES

Normalmente, a Olhos Livres guarda alguns dos melhores longas em exibição no festival, mas este ano, além de não conseguirmos a logística completa (o festival começou dia 19, nosso credenciamento, dia 22) que permitisse a contemplação total da Mostra, foi possível notar uma grande disparidade entre as obras selecionadas, desde o documentário familiar como “Seu Cavalcanti”, de Leonardo Lacca, até a representação caótica de uma agonia global e moderna em “O Homem que Viu o Abismo”, de Gregorio Gananian e Negro Léo, que saiu vitorioso na noite da premiação. Foi uma Olhos Livres com largos vácuos em si, projetos com aceitação conturbada do público e algumas desistências durante a projeção no Cine-Tenda. Sem dúvida, o filme que mais arrancou aplausos durante as exibições foi “Seu Cavalcanti”, capaz de divertir o público, mesmo tratando de um documentário tão particular. E o longa mais polêmico da Mostra foi “Os Sussurros Me Mataram”, de Arthur Tuoto, que foi debatido no dia seguinte com uma parte da argumentação voltada para “os riscos tomados pela curadoria”. 

Para o Vertentes do Cinema, os destaques da Mostra Olhos Livres, foram “Seu Cavalcanti” e “O Homem que Viu o Abismo”, dois projetos extremamente distintos que foram capazes de gerar debate ao longo da Mostra sobre a utilização da linguagem cinematográfica em seus respectivos objetos. Foi possível notar que as obras que possuíam o caráter político mais explicitado em sua estrutura, foram as mais irregulares, talvez demonstrando uma certa leitura apressada ou muito próxima de determinados acontecimentos históricos, que ou transformaram esse registro em algo quase apático ou se debruçaram em uma certa “revolução de apartamento” com grave espírito moral de derrotista. 

Ps: O Vertentes do Cinema não conseguiu assistir “Terror Mandelão”, de GG Albuquerque e Felipe Larozza, por conta da logística.

Macas no Escuro

MOSTRA AURORA

A Mostra Aurora geralmente carrega uma série de polêmicas consigo e alguns dos projetos mais divisivos de Tiradentes. Este ano, este título ficou com a Olhos Livres. Porém, a Aurora manteve seu espírito de digressão, com filmes que possuem uma linguagem ousada e experimentações agudas. O grande vencedor da Aurora este ano foi “Lista de Desejos para Superagüi”, de Pedro Giongo, mas um dos projetados mais comentados ao longo da Mostra, e provavelmente o mais aguardado até então, foi “Sofia foi”, de Pedro Geraldo, que rendeu bons debates após a sessão no Cine-Tenda. Entre documentários, ficções e experimentações, a variedade da Aurora foi tão grande que este ano não houve um “filme-evento” que realmente cria uma ruptura ao longo da Mostra, tornando-se o maior assunto de Tiradentes. O mais perto disso, foi “O Tubérculo”, de Lucas Camargo de Barros e Nicolas Thomé Zetune, que foi o projeto mais divisivo em exibição.

Os destaques para o Vertentes do Cinema, na Mostra Aurora, foram “Maçãs no Escuro”, de Tiago A. Neves, “Sofia Foi”, de Pedro Geraldo e “Lista de Desejos para Superagüi”, de Pedro Giongo. Justamente por serem projetos tão distintos, acreditamos que os três longas sejam capazes de criar um bom debate para a seleção da Mostra Aurora no ano de 2024. “Eu Também não Gozei”, de Ana Carolina Marinho, merece uma menção honrosa.


CONFIRA A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES DA MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES 2024

Lista de desejos para superagüi

LONGA MOSTRA AURORA – PRÊMIO JÚRI OFICIAL

“Lista de Desejos para Superagüi” (PR), de Pedro Giongo

MENÇÃO HONROSA – MOSTRA AURORA – PRÊMIO JÚRI OFICIAL

“Maçãs no Escuro” (SP), de Tiago A. Neves

DESTAQUE FEMININO – PRÊMIO HELENA IGNEZ – JÚRI OFICIAL

Kerexu Martim, diretora do filme “Aguyjevete Araxi’I” (SP)

LONGA – PRÊMIO JÚRI POPULAR

“As Primeiras” (SP), de Adriana Yañez

CURTA – PRÊMIO JÚRI POPULAR 

“Soneca e Jupa” (MG), de Rodrigo R. Meireles 

CURTA MOSTRA FOCO – PRÊMIO JÚRI OFICIAL 

“Eu Fui Assistente do Eduardo Coutinho” (RJ), de Allan Ribeiro 

CURTA MOSTRA FOCO – PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS 

“Eu Fui Assistente do Eduardo Coutinho” (RJ), de Allan Ribeiro 

LONGA MOSTRA AUTORIAS – PRÊMIO DO JÚRI DA CRÍTICA | ABRACCINE 

“Estranho Caminho (CE), de Guto Parente 

LONGA MOSTRA OLHOS LIVRES – PRÊMIO CARLOS REICHENBACH | JÚRI JOVEM 

“Aquele que Viu o Abismo” (SP), de Negro Léo e Gregório Gananian 

WIP – CORTE FINAL – PRÊMIOS CTAV, THE END

“Ausente” (MG), de Ana Carolina Soares

WIP – CORTE FINAL – PRÊMIO O2 PÓS

“Novembro” (PE), de Milena Times

WIP – CORTE FINAL – PRÊMIO MÁLAGA WIP

“Suçuarana” (MG), de Clarissa Campolina e Sérgio Borges

 

Mostra de Tiradentes 2024

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